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10 músicas antigas (e que não tocam na rádio) para amar o Capital Inicial

Que atire a primeira pedra quem nunca teve uma paixonite de adolescência. Coração mole que sou, na falta de uma, eu tive várias. E entre platônicas e realizáveis, destaco uma utópica. Dinho Ouro Preto. Ou melhor, o Capital Inicial todo. Foram alguns anos de revistas recortadas e de entrevistas impressas às escuras na impressora do colégio – que era só pra imprimir trabalhos, diziam. Teve CD de presente de aniversário, na época em que o mundo nem sonhava com serviços de streaming de música. Teve o primeiro show da vida. Teve até troca de e-mails que resultou em êxtase: meu nome citado numa coluna que o Dinho escrevia para a finada Revista Capricho – como se não bastasse ter acatado à minha sugestão de pauta sobre as teorias da conspiração que rondam as mortes precoces no mundo da música, ele ainda disse que eu escrevia muito bem. E modéstia à parte, ele tinha razão.

Eu devia ter uns 14 anos. Como mera mortal que sou, não saí impune das desventuras do tempo. Envelheci, recrudesci. Apodreci. Virei adulta ocupada, repetitiva e chata. A pasta de recortes ficou, eu passei. Larguei a juventude, a banda, o violão e o canto – o canto nem tanto assim, vai… Aprendi a colocar trabalho e estudo acima de qualquer prazer ou agrado. Aprendi a falar corporativês – fluentemente, por sinal. Aprendi a usar roupa social e a sempre levar um blaserzinho na bolsa “para esconder as tatuagens”. Aprendi, aliás, a usar bolsa a tiracolo, como se eu fosse uma mãe. Aprendi a guardar dinheiro, a passar no débito, a investir. Aprendi uma porção de coisas amargas sobre as quais eu poderia discorrer durante um dia inteiro, uma semana inteira, um mês inteiro. Mas isso é assunto pra outro texto.

Hoje, o que me cabe é revisitar – boas – memórias. Outro dia, passeando por São Bernardo, cidade onde nasci e cresci, me saltou aos olhos, por entre a costumeira neblina, um outdoor anunciando um show do Capital Inicial na Associação dos Funcionários Públicos – ou Sôci, para os íntimos. Seria apenas mais um dos milhares de outdoors que poluem visualmente a cidade se não fosse o Capital Inicial. Se não fosse às vésperas do meu 27° aniversário – a fatídica e macabra idade dos bons que se vão cedo. E se não fosse na Associação. O lugar onde eu tomei, escondida, a minha primeira tacinha de vinho. Onde eu flertei pelas primeiras vezes. Onde eu gastei meus primeiros trocados com pratos de macarronada nas emblemáticas festas italianas. Para onde eu saí à noite pela primeira vez sem companhia de pai e mãe.

Tanto pela banda quanto pelo local, eram memórias afetivas fortes demais para eu me fazer de rogada. Sei que o lugar, o repertório do Capital e eu mudamos, mas comprei meu ingresso. Não só vou – como vou me acabar. Cantar, dançar, pular, vibrar. Entender que o tempo passou, encarar as novidades com carinho. E aproveitar todo esse resgate emocional para deixar, aqui, um presentinho para você. Como boa fã de Capital Inicial, eu conheço muita coisa da banda. Inclusive, os lados-bê e as antigueiras. Então, aqui vai uma lista de músicas maravilhosas para você ouvir e amar Capital Inicial – pelo que não toca [mais] na rádio e nem ultrapassa as 100 mil visualizações no Spotify.

1) Psicopata (1986)

A origem do Capital é o punk. O riff introdutório no baixo, a simplicidade dos power chords e a letra azedamente bem-humorada de Psicopata estão aqui para provar isso pra quem ousa duvidar.

“Papai morreu
Mamãe também
Estou sozinho
Eu não tenho ninguém
Essa vida me maltrata
Estou virando um psicopata”

2) Todos os Lados (1989)

Eu, particularmente, tenho muita resistência ao excesso de teclados e sintetizadores característicos do rock dos anos 80. Mas posso dizer que, em “Todos os Lados”, os teclados dizem a que vieram. Além de conviverem harmonicamente com uma guitarra relativamente pesada e distorcida, eles (junto com a letra, é claro) são fundamentais para criar a áurea sombria da música. Que, inclusive, empresta o nome a um dos meus álbuns preferidos do Capital Inicial <3

“Não tenho nada a não ser as paredes
E a companhia dos que caem na rede
Querendo mais do que um simples enredo
Nadando em muito enquanto morrem de sede”

3) Mickey Mouse em Moscou (1989)

Final dos anos 80. Queda do muro de Berlim, o maior símbolo da Guerra Fria. Spielberg com Eisenstein. Las Vegas com Kremlin. Mickey Mouse em Moscou. Essa música é um prelúdio da globalização.

“Ninguém mais vai jogar
Flores mortas no muro
Ninguém mais vai pichar
Frases fortes no escuro”

4) Kamikaze (1991)

Um violão bem presente, uma linha de baixo expressiva, uma letra simples. “Kamikaze” é tudo isso e, ainda por cima, maravilhosa. Sei que o videoclipe dessa música foi indicado ao VMA – o que significa que ela fez um considerável sucesso na época em que foi lançada. Mas é uma das minhas queridinhas. Então, não podia ficar de fora.

“As armas que eu tenho
As armas que eu quero ter
As armas que eu uso só ferem você”

5) Hotel Jean Genet (1998)

Ao contrário do que muita gente pensa, o primeiro álbum depois do retorno do Capital Inicial não é o Acústico MTV, e sim o “Atrás dos Olhos”. Que, na minha opinião, é uma obra-prima. Um disco de cabeceira. Um dos melhores álbuns do rock brasileiro. A minha vontade mais sincera era de colocar TODAS as músicas do “Atrás dos Olhos” nessa lista. Mas, com muito esforço, me limitei a três. A primeira é “Hotel Jean Genet” – o cenário perfeito para um curta-metragem de terror trash.

“Na entrada um aviso dizia: 
Bem-vindo ao hotel Jean Genet 
Conheça o inferno 
Sem ter que morrer”

6) Estranha e Linda (1998)

Nervosa, pesada, complexa. Aquele Capital Inicial que não amansa nem quando Dinho começa a cantar. Maravilhosa, esplendorosa, sensacional. Passaria minhas sete vidas de gata escutando essa música. Ininterruptamente.

“Cheia de vida
Cheia da vida
O que você quer
Não cheira nem brilha”

7) Paz no Matadouro (1998)

Terceira e última música do “Atrás dos Olhos” que coloco nessa seleção. Tô treinando o autocontrole, gente.

“Estou curioso a seu respeito
Mas tão cansado de esperar
Leve o seu gato pra longe daqui
Solte seus cachorros no matadouro
Eu quero paz no matadouro”

8) Enquanto Eu Falo (2002)

Uma parábola de um relacionamento [platônico] intermediado pela tecnologia – ou pela simples falta de interesse. Com uma gaitinha e uma sequência harmônica deliciosas pros ouvidos.

“Eu estou procurando
As chaves que ela sempre perde
Pensando em tortura
Andando pela sala escura
Mas eu nunca aprendi a dizer não
Quanto mais deixar de amar a TV que ela vê
Enquanto eu falo”

9) Insônia (2004)

Eu sempre odiei com todas as minhas forças incursões eletrônicas no rock. Parei de ouvir diversas bandas – Radiohead e Coldplay, inclusive – quando elas começaram a flertar com o eletrônico. Mas o Capital faz isso tão bem nessa música, que dá vontade de sair abraçando todos eles. Sem contar que a letra dessa música é um primor <3

“Eternamente ao som do mar azul e céu profundo
Morfeu deitou, adormeceu e esqueceu de mim
Metade do planeta no escuro abandona o dia
E eu aqui anoiteci querendo ser assim
Dormir como uma pedra
Ter sonhos no chão”

10) Bônus track – Vênus em Pedaços (1989)

Ela é estranha, incômoda, explícita, non sense. É uma sessão de bondage praticada com uma deusa mitológica. Chega a beirar o trash. Nem eu entendo direito porque gosto tanto dessa música. Mas vai que algum de vocês concorda comigo, né?

“E agora o trono
Da deusa sem braços
É apenas o chão
A Vênus cortada
Em ouro, em pele, aos pedaços”

 

Bom, minha lista fica por aqui. Sei que tem banda que odeia esses resgates de músicas antigas, e espero do fundo do coração que o Capital Inicial não seja uma delas.

Velharia, meus bens, é bom, tem vitamina, engorda e faz crescer <3

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