14 coisas que aprendemos com a Copa no Brasil Esta foto é sua?

14 coisas que aprendemos com a Copa no Brasil

1 – Quem não quer ser amigo de David Luiz?

Durante a Copa percebemos diversas atitudes do zagueiro David Luiz que demonstraram grandeza de caráter e muito carisma. A cena comovente em que ele consola o jogador colombiano James Rodríguez, aos prantos pela derrota de sua seleção para a nossa, foi de uma generosidade impar. Nesse mesmo jogo, logo no inicio, nos deparamos com a cena em que os jogadores entram com as crianças no gramado, e David é o único que faz questão de ser atencioso, brincar, dar atenção e é extremamente agradável receber atenção sincera do seu ídolo. Fora que o craque do Chelsea é um zagueiro diferenciado, dribla, tem postura ofensiva, faz gol de falta e em diversos momentos e é uma palavra de união na equipe. Seu pedido de desculpas para a torcida diante dos 7×1 foi comovente e de uma hombridade notável. David Luiz perdeu a Copa, mas ganhou a nossa amizade – por telepatia.

2 – Juízes inseguros precisam de mais juízo.

Se alguém dizia que a Copa estava comprada por nós, já deve ter passado por um processo de desconvencimento ou alguém sustou o cheque. O gol anulado de Hulk contra o Chile, a não-punição do jogador colombiano que agrediu Neymar, o pênalti não-marcado em Fred pelo jogador da Croácia (e o marcado errado) e a falta de pulso dos árbitros na hora de advertir jogadas faltosas. Foram investidos R$ 2 milhões pela Fifa para implantar o chip na bola, mas nem isso foi suficiente para que presenciássemos atuações convincentes de alguns juízes. Suas mães devem estar com a orelha pelando, aja xingamento.

3 – Ei amor, sai da frente que eu to vendo o jogo, disse ELA.

É com satisfação que podemos dizer que nessa Copa, mais do que nunca, as mulheres deixaram de ser ostracizadas, ou tidas como enfeites de arquibancada e participaram ativamente como torcedoras. Se envolveram, comentaram com propriedade, gritaram, discordaram, xingaram, e disseram a frase acima. O futebol ficou mais democrático, inclusivo, um pouco menos machista e – temporariamente – deixou de ser pauta de DR.

4 – Não é só no Brasil que existe gente sem noção.

Os torcedores do Chile invadindo a tribuna de imprensa, os argentinos tidos como agressivos dando meia volta na fronteira, o uruguaio Luis Suarez, suas mordidas e infantilidades, os jogadores camaroneses se estranhando no meio do jogo. Dentro de toda a tão comentada síndrome de vira-lata do brasileiro, nos demos conta de que bagunça, gente sem noção ou transtornada, não são coisas intrínsecas ao brasileiro, existem em todo lugar e provavelmente achávamos isso porque só tínhamos o Brasil como um ponto (limitado) de referência.

5 – Zebras e quebras de expectativa deixam tudo mais emocionante.

O momento mais emocionante da Copa – na minha opinião – foi a classificação da Costa Rica na vitória diante da Itália. A seleção era o patinho feio do grupo da morte, uma espécie de Susan Boyle, e começou a chamar a atenção com a vitória de 3×1 sobre o Uruguai. A eliminação precoce de gigantes como Espanha, Inglaterra, Itália e Portugal estragou o bolão de 9 a cada 10 entendedores de futebol. As seleções da Argélia e Gana deram trabalho, a as oitavas de final mais pareciam uma Copa América, trazendo seleções latinas emergentes fazendo muito barulho, jogando com ousadia e qualidade: caso de Colômbia, Chile e México. Ninguém esperava 7×1 para a Alemanha, outra desagradável surpresa que nos tirou da festa.

6 – “É tudo culpa da Dilma”, polêmicas incoerentes e outras associações equivocadas.

As plataformas eleitorais e partidárias se articularam como nunca durante o Mundial. Desde julgamentos precipitados, a maioria relacionada à falta de conhecimento do brasileiro em relação às funções de um presidente. A teoria da conspiração do jornalista da Veja, que dizia que o vermelho no logo da Copa era uma propaganda subliminar comunista vinda da esquerda, e virou chacota entre os intelectuais. Houve  a discussão ocasionada pelas vaias e xingamentos feitas a presidenta Dilma e ao hino da seleção do Chile. Muitas falhas foram colocadas na conta da presidenta sem que a culpa realmente fosse dela – lembrando que isso não faz dela uma santa, nem ameniza suas falhas de governo. Tal repetição se banalizou e virou um meme com piadas de humor nas Redes Sociais. A cerimônia de abertura, maior objeto de crítica dos brasileiros, foi realizada por belgas, dentro de normas da própria Fifa, e não foi muito diferente da abertura das Copas anteriores. Houve também a discussão, sem muita coerência, sobre o nível de importância dada pelos brasileiros em relação à contusão de Neymar e o acidente com o viaduto em Minas. Pra fechar os equívocos desproporcionais: o colombiano que maliciosamente tirou Neymar da Copa foi vítima de racismo e ameaças de morte por conta do episódio.

7 – O choque cultural

Todos ficaram impressionados com a (surpreendente) simpatia dos jogadores alemães ou a atitude da torcida japonesa, que ao final dos jogos, recolhia os lixos pela arquibancada com sacolas plásticas. E isso mostra como o impacto cultural é capaz de nos educar através do exemplo construtivo.  Os brasileiros que nunca viajaram para o exterior tiveram uma experiência de interação cultural “invertida”, em que o contato entre culturas interferiu em nossa forma de pensar, ou desmontou paradigmas culturais ultrapassados. O mundo veio até nós, trocamos experiências e até novos jeitos de dançar com a seleção de Gana. Outra curiosa situação de se sediar uma copa foi vermos os gringos descobrindo todas as nossas “falsas” apropriações gastronômicas. Torta holandesa, palha italiana, pão francês, batata suíça, e outras meias verdades pouco (ou não) acháveis nos países de “origem”.

8 – O elitismo, a gentrificação, e algumas tragédias.

A Copa trouxe discussões como a gentrificação em algumas regiões, como o Cais de Estelita em Pernambuco, que ganhou destaque global depois que a seleção alemã e a cantora Madonna mostraram-se solidários a ocupação do local por ativistas. Gentrificação é um processo urbano que a partir de especulações imobiliárias ou mudanças estruturais convenientes à construtoras prejudicam as pessoas de baixa renda, que muitas vezes acabam sendo expulsas de suas próprias moradias, como ocorreu no Morro da Previdência no Rio. O acesso aos ingressos apenas para um público privilegiado, a quadrilha de cambistas pega em flagrante, o desabamento do viaduto em Belo Horizonte, os acidentes durante a construção dos estádios com a morte de operários, e a história do coreano Ki Dong Am que foi assaltado três vezes em uma semana na Vila Madalena e na delegacia apenas lhe entregaram um “papel provando que ele foi roubado” – e ele até agora não sabe para que serve.

10 – Galvão, falo mal, mas não mudo de canal

Uma competição como a Copa precisa ser uma historinha bem contada, pra ter emoção, pra gerar interesse, mesmo que seja para que nos irritemos com alguém. Nessa hora o jornalismo é peça fundamental. Muitos de nós aguentamos (reclamando) mais uma vez as chatices de Galvão Bueno e seu puxa-saquismo direcionado ao jogador Neymar sem mudarmos de canal. Mas nessa Copa tivemos um “aliado” na sala de transmissão: Ronaldo fenômeno não agregou muito em seus comentários, mas eram nítidas as suas tiradas em relação a Galvão, como no episódio em que o narrador fazia intervenções destacando os acontecimentos do dia na novela das oito e não gostou de ser chamado de noveleiro pelo ex-jogador. Patrícia Poeta demonstrava a todo tempo certo desconforto, e parecia aquele tipo que não puxa assunto com os colegas de firma quando não está no ar. Fernanda Gentil nos ganhou com o seu humor e simpatia, e Thiago Leifert voltou a ser o bom e velho Thiago Leifert, o do esporte, não o que tenta ser o Rodrigo Faro. Quem mudou de canal teve opções como a “Fox Sports 2”, e as narrações divertidas e escrachadas do irreverente Paulo Bonfá.

11 – A Fifa não tem padrão Fifa

Diversas falhas – principalmente na segurança – ocorreram durante a Copa, e muitos desses deslizes foram da entidade futebolística cheia de fins lucrativos. O padrão Fifa foi diversas vezes questionado como na cerimônia de abertura mediana do Mundial ou no episódio da invasão do centro de imprensa do Estádio por conta de uma tática amadora utilizada pela torcida chilena junto aos seguranças. A mesma torcida chilena conseguiu entrar com fogos (proibidos) nos estádios em dois jogos, mais uma vez enganando os seguranças na porta do estádio. Partidas sem hinos, filas evitáveis nas lanchonetes dos estádios e até trocas de bandeira (Nigéria pelo Níger) marcaram a queda de credibilidade do padrão Fifa tão exigido pela mesma.

12 – Ser contra a Copa não quer dizer não gostar de Copa. (#naovaitercopa mas eu vou assistir)

A contradição tomou conta de vários de nós: muita gente que era contra a realização do evento no Brasil, acabou abraçando a causa da seleção: vestiram-se de verde e amarelo e abraçaram um eminente paradoxo. Muitos intelectuais e ativistas tentaram se explicar usando teorias infalíveis, outros não se preocuparam com justificativas, outros poucos mantiveram a posição contrária e boicotaram a existência do Mundial. A verdade é que o espírito de Copa e a alegria de torcer colidiram exatamente com os discursos políticos e teorias contrárias, e para muitos de nós, separar temporariamente política de futebol foi conveniente, embora ambos estejam interligados.

13 – Nós preferimos a Ivete

Poucas vezes vimos uma reação tão contrária a uma performance como a que ocorreu em relação à cantora Claudia Leitte. Desde o começo, muitos estranharam a escolha da cantora para interpretar a canção-tema da Copa ao lado de Jennifer Lopez e Pitbull na cerimônia de abertura. Seu requebrado junto de seu uniforme azul foi comparado a “galinha pintadinha”. Resultado: no lugar da loira, para a cerimônia de encerramento foi convocada a cantora mais querida pela maioria dos brasileiros, Ivete Sangalo. Junto da baiana também foram chamados Shakira, Alexandre Pires e Santana.

14 – “The zuera never ends”

Muitos dizem que essa foi a Copa da zoeira, diversas situações engraçadas aconteceram como o episódio da atriz Bruna Marquezine dando um cutucão em um rapaz supostamente flatulento durante o jogo do Brasil. O jogador italiano Balotelli que completou a página da Itália no álbum apenas com as figurinhas da sua imagem. A repórter Sabina Simonato que passou a ser beijada no rosto por torcedores assim que seu link entrava ao vivo.  A verdade é que nós brasileiros somos a prova viva de que é possível levar a vida com humor, usando o riso pra amenizar a tristeza, e isso não apaga nossas dificuldades, mas amortece e muito as nossas dores.

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