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A assustadora mutação de uma ciumenta

20h23. Ele ainda não ligou. Também não mandou mensagem. Ela pensa: “Eu não tenho motivos para sentir ciúme. Estou feliz por ele estar se divertindo com os amigos e tomando um chope bem gelado!”.

21h33. Nenhuma chamada perdida. Nenhuma chamada atendida. Nenhuma mensagem recebida. E não é culpa do sinal da TIM que, milagrosamente, está a todo vapor. Ela rói a pontinha da unha do mindinho e pensa: “Ciúme é uma bobeira. A boa namorada tem que sorrir quando o namorado está feliz. Mas será que ele está feliz só por estar com os amigos? Ou será que ele está acompanhado de mais alguém?”.

21h45. Ela liga e desliga o celular, pois a falta de contato dele pode ser decorrência de algum problema tecnológico desconhecido. Mas não é. O que ela vê na tela do celular é apenas uma atualização do aplicativo para chamar táxis e um e-mail marketing do estúdio no qual ela faz pilates. Ela rói o cantinho da unha do outro mindinho, consome desesperadamente – como faz quem tem uma recaída de crack – quatro quadradinhos de chocolate, e pensa: “Nem uma mensagem? Ele sabe que eu fico preocupada (doente de ciúme). Ele só pode estar aprontando. Aquele bar que ele foi vive cheio de vagabundas! Não gosto quando ele sai com o Marquinhos!”.

21h46. Ela envia um SMS para ele: “Amor, está tudo bem? Você se esqueceu de mim? Não esquece que eu amo você mais do que tudo!”. Mas ele não responde, nem uma sílaba. Ela sente raiva. Imagina o namorado falando gracinhas para uma piriguete coxuda de sneakers no pé e batom vermelho nos lábios. Ela corre para a cozinha e come, em menos de um minuto, oito quadradinhos de chocolate. Ela rouba um cigarro – um Charm – da avó e fuma em dois tragos. Ela pensa: “Tenho certeza que o filho da puta não responde por estar ocupado comendo alguém! Mas ele me paga! Vou cortar o saco dele e dar para os gansos assassinos do lago do Ibirapuera!”.

22h20. O Zorra Total começa e, de alguma forma misteriosa, aumenta a aflição dela. Nem um sinal de fumaça dele. Ela tenta ler um livro, porém, nem depois de repetidas e insistentes tentativas, ela consegue compreender a primeira linha. Ela está com a cabeça em outro lugar. Ela está possuída pelo próprio pessimismo. Ela, então, numa tentativa desesperada de tirar o ciúme de dentro dela, rouba um Lexotan da mãe. E mais dois cigarros da avó. E o resto do chocolate da irmã. E um vigoroso copo de cachaça do pai. E pensa: “Eu vou atrás dele! Vou pegar esse merdinha no pulo! Quem ele pensa que é?”.

22h28. Ela está no elevador e, no espelho, vê uma moça descabelada. Mas ela não está nem aí para a aparência ou para o fato de estar com um sapato diferente em cada pé. Ela só quer descobrir a verdade por trás do silêncio do namorado.

22h34. Ela acelera como se fosse a motorista de uma ambulância que porta alguém à beira da morte ou, se preferir, como se pilotasse uma viatura que persegue um criminoso procurado internacionalmente. Mas, caro leitor, não se engane: ela não passa de uma namorada completamente transtornada pelo ciúme. E, infelizmente, meio grogue devido à mistura inconsequente de Lexotan com álcool.

22h54. Ela está quase chegando ao Bar do Marião quando, abruptamente, uma viatura a para.

22h56. “Para onde a senhora está indo?”, o policial pergunta. E ela, com voz mole, responde: “Peço desculpa por estar correndo, senhor, é que estou indo para o velório da minha avó.”, ela mente. E o policial, incrivelmente, fica sensibilizado e diz: “Você não está em condições de dirigir, vamos levar a senhora até lá. Em qual cemitério?”. “Não precisa senhor, eu estou bem!”, ela responde, em tom exaltado e tentando firmar a voz. “Senhora, você está visivelmente alterada. Se não cooperar, teremos que levar você à delegacia. Em qual cemitério a sua avó está sendo velada?”. Então, sem se preocupar com o risco de perder a habilitação ou de acabar presa, pensando apenas no namorado que não liga, ela, rapidamente, diz o nome de um cemitério que fará com que a viatura, necessariamente, para se dirigir a ele, tenha que passar em frente ao Bar do Marião: “Cemitério das Garças!”.

23h03. A viatura passa em frente ao Bar do Marião e ela, apesar de estar com o nariz colado no vidro, não vê o Ricardinho por lá. Ela então tem um surto. Começa a se debater feito um camundongo atirado no terrário de uma jiboia faminta. O policial pede para ela se acalmar. Mas ela continua a socar o banco do carro e a dizer coisas como: “Eu vou matar ele!”. O policial, então, após pedir repetidas vezes para que ela se acalme e depois de receber algumas unhadas no antebraço, perde a paciência, manda a inexistente recém-falecida avó se foder e leva a ciumenta para a delegacia.

03h31. Depois de uma longa canseira na 13ª DP e de responder a perguntas de todos os tipos, finalmente, o delegado a libera – com a simples condição de alguém busca-la na delegacia. Ela poderia, muito bem, chamar um táxi ou ligar para uma amiga. Porém, ela resolve ligar para o namorado. O celular cai diretamente na caixa postal. E ela, incapaz de conter as próprias emoções, pega o primeiro objeto que vê na frente e arremessa contra um vidro da delegacia. Não era qualquer objeto – tratava-se de uma pequena estátua que o vaidoso e já velho delegado Rubens, por garantir a segurança da Hípica e por fornecer cocaína às festas que rolavam por lá, havia recebido como forma de agradecimento – o único “obrigado” que ele recebeu depois do “obrigado” que ouviu, aos 15 anos, quando desvirginou Matilde, a Faminta.

03h33. Após um minuto de silêncio e depois de descobrir que a estátua em forma de cavalo e com o nome dele estava estraçalhada, o delegado Rubens, enfurecido, faz com que a ciumenta seja presa por desacato e perturbação da ordem pública. Ela chora copiosamente. Não pela prisão, pois o único sentimento que ela carrega é o ciúme. O Rubens também chora.

04h20. O celular dela – que já não está mais com ela – vibra para informar a chegada da seguinte mensagem de texto: “Amor, peço desculpas por não ter respondido antes. É que meu pai enfartou e eu tive que sair do Bar do Marião direto para o hospital. Agora o estado de saúde dele já é estável e ele não corre mais risco de morte, mas foi um susto gigante. E você, está bem?”.

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