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A felicidade da mera possibilidade

Às vezes a simples possibilidade de fazer ou ter algo é quase tão prazerosa – senão mais –  que o próprio ato de fazer ou ter aquela coisa. Eu sei que é complicado de entender assim, de primeira, mas depois que eu explicar vocês hão de concordar comigo.

Hoje uma amiga paulista me disse que adoraria morar no Rio, porque “vocês cariocas vão à praia todos os dias”. Eu não vou. Eu não conheço sequer um carioca que vá à praia todos os dias. Mas aí é que tá: se eu quisesse, eu poderia ir. E essa possibilidade –ainda que nunca concretizada – é muito mais recompensadora do que o fato de ir de verdade. Se eu for eu posso ser assaltado, atropelado, me afogar, cair de cara na areia, uma série de intempéries podem me acometer. Mas se eu não for, o fato de que eu poderia ter isso será sempre perfeito na minha imaginação: eu poderia ter ido, ter sido paquerado pela seleção sueca de bronzeamento natural de topless, poderia ter ganho na loteria com o bilhete que eu compraria com o troco do picolé etc. Guardando a possibilidade no bolso em vez de realmente concretizá-la, eu sou muito mais feliz.

Outro exemplo: há alguns anos, em uma pré-estreia de um filme – na época que estreia ainda tinha acento – a Mariana Ximenes me olhou diretamente nos olhos durante quase dois segundos, antes de encontrar o garçom e pedir um drinque. Isso me bastou. Isso me fez viver na esperança eterna de que aquilo poderia ter evoluído, termos nos amado, nos casado, termos tido dois filhos chamados Luiz Fernando e Isabela (pra ser chamada de Bela pelos amigos), um cachorro chamado Brutus e uma Arara chamada Rita.

Poderíamos viajar para Iguaba no Carnaval e curtir um show da Banda Boka Loka na rua principal. Poderíamos, porque isso tudo ficou só na minha imaginação. Agora me respondam, e se tivesse acontecido algo? E se eu broxasse? E se ela não gostasse de homens que usam cueca samba-canção? E se meu carro enguiçasse e eu não tivesse dinheiro para levá-la para casa de táxi? E se ela não quisesse que nosso filho se chamasse Luiz Fernando ou não quisesse ter uma arara? Teria ido tudo por água abaixo! Minha vida teria sido um desastre completo, eu seria infeliz para todo o sempre. Mas com a remota possibilidade de que poderíamos ter sido felizes guardada aqui na minha cachola, eu sou muito mais feliz!

A realidade estraga tudo. Sabe aquele discurso lindo, romântico e meticulosamente engraçado na medida certa, que você pensou todinho na sua cabeça pra pedir a Bia em namoro? Então, na sua cabeça ele é lindo, ela vai ouvir, rir, chorar, te abraçar e duas semanas depois vocês estarão discutindo se a casa de vocês vai ter TV na sala ou não. Mas na verdade você vai gaguejar, se enrolar, ela vai rir de você, o marombadão da faculdade vai ligar pra ela enquanto isso, chamar ela pra sair e, antes que você possa tentar se lembrar da citação de Hemmingway sobre o amor, ela vai aceitar e em algumas horas eles estarão fazendo sexo no banco de trás do Corsa dele, com toda aquela tralha que ele guarda no banco de trás espetando a bunda dela.

A realidade é a grande culpada de toda a nossa infelicidade. Na minha cabeça, hoje eu estaria na praia com a Mariana Ximenes, nossos dois filhos, o cão e a Arara, matando de inveja aqueles pobres coitados que nunca foram olhados por dois segundos pela Mari (já somos íntimos, não tem problema) ou pelos que não podem ir à praia todos os dias. Porque eu posso. E eu poderia ter me casado com a Mariana Ximenes. E isso me basta. Pelo menos eu não broxei.

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