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A geração do Merthiolate que não arde

Nasci na década de noventa − e isso pode ser estranhamente desconfortável para quem se identifica com meus escritos − porque inevitavelmente, deixa a impressão de que ainda não vivi tanto assim para opinar sobre tantas coisas, como muitas vezes me proponho. Garanto, no entanto, que essa minha eterna mania de aprender com as experiências alheias deve ser capaz de me conferir alguma credibilidade com quem escuta o que tenho a dizer.

Faço parte, portanto, desta inusitada geração do merthiolate que não arde. Garanto, desde logo, que não sou adepta a este irritante saudosismo que repete incansavelmente que “antigamente era assim, hoje em dia é assado” ou “bom mesmo era na minha época” (até porque, convenhamos, a minha época é a atual).

Mas, é que me parece que nesta época, ninguém sofre. É claro que cada geração tem seus prazeres e seus dissabores, mas a rebeldia nos dias de hoje me parece tão fácil. Nos verdadeiros anos rebeldes − os quais, infelizmente, não vivi, mas nem por isso deixei de pensar sobre − era preciso ter culhões para entregar-se à rebeldia. Quem escolhesse usar drogas ilícitas deveria estar preparado para, possivelmente, ser tratado como um criminoso em potencial. Hoje, qualquer um fuma um baseadinho, “dá uns tecos”, e o máximo que lhe pode acontecer é receber um sermão do delegado de polícia, assinar um termo de advertência e voltar pra sua cama confortável, mesada gorda e suas mãos maternas sempre dispostas a perdoar.

Não que eu seja nenhuma adepta do discurso antidrogas ou coisa parecida. Este não é um texto moralista − até porque pregar a moral e os bons costumes não é exatamente o meu perfil, por assim dizer. Esta é apenas uma constatação sobre o quanto a rebeldia, nos dias de hoje, perdeu a sua essência. Não tem mais graça. Se antes tínhamos rebeldes cheios de causas – embora eu não possa e não queira discutir o seu mérito − hoje todos têm suas respectivas causas obtidas com um clique no Google.

Temos ateus cheios de razões pré-concebidas, ativistas de redes sociais e adeptos da inteligência descartável que não melhora sequer suas próprias vidas, imagine a humanidade. Os novos rebeldes assumem causas que não lhes incomodam − pelo simples prazer de se rebelar − chegam à vida adulta sem precisar, muitas vezes, sentir o peso de sustentar, se tornam entendedores absolutos de qualquer assunto, sem precisar estudar − porque um simples clique lhes garante sabedoria tão acessível quanto frágil − e usam merthiolate que não arde.

Talvez por isso, esta geração tão acostumada com facilidades se nega absolutamente a qualquer sofrimento: querem sucesso sem esforço, reconhecimento sem trabalho e rebeldia sem consequências. A geração do merthiolate que não arde não aprendeu o preço das coisas – e quem poderá culpá-los (ou, em melhor conjugação: nos culpar?). Nesse mundo em que dá pra comprar sem sair de casa, filosofar na internet sem nunca ter lido sequer um filósofo na vida, graduar-se à distância sem jamais pisar numa sala de aula, falar de política sem o menor embasamento, entrar em forma sem precisar de esforço – com intervenções estéticas intermináveis – e curar feridas sem sentir dor, porque existe um merthiolate que não arde − é natural que se pense que tudo é tão fácil assim. É natural que não se cresça nunca. Para sairmos deste casulo no qual o mundo parece consentir que permaneçamos pelo resto de nossas vidas, é preciso retroceder um pouco e compreender que tudo na vida tem um preço, um tempo, um trâmite. Que o Google talvez não saiba de tudo. Que os conselhos de avó podem, sim, ter seu lugar. Que cada ferida precisa de tempo e um pouco de dor pra se regenerar – porque não existe fórmula imediata para a maturidade. Crescer dói. Arde. E pra isso, meus caros, não há remédio imediato.

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