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A glamourização do abuso do álcool

Muito tenho ouvido acerca da descriminalização do uso da maconha – o que me leva a acreditar que estamos rumando em direção ao progresso (progresso do diálogo, no mínimo) –, porém, pouquíssimo tenho ouvido a respeito de um notável aspecto cultural/social/midiático que, a meu ver, precisa – URGENTEMENTE! – ser freado: a glamourização do abuso do álcool.

O que eu quero dizer com “glamourização do abuso do álcool”? Quero dizer que comumente chamamos de herói – ou de “O CARA” – aquele que costuma beber sem a mínima moderação; até começar a balbuciar groselhas, beijar a sarjeta e, por fim, precisar de glicose dentro das veias. Quero dizer que costumamos compartilhar – como se estivéssemos compartilhando quebras de recordes olímpicos – vídeos nos quais garrafas inteiras de vodca são esvaziadas em menos de quinze segundos, por uma só pessoa (pessoa ou suicida?); compartilhamos e ainda fazemos grandiosos elogios, como: “Esse maluco é pica!”, “Quero ser igual a ele quando crescer!”. Quero dizer que basta uma espiadinha em nossas produções culturais para encontrarmos músicas que tratam porres homéricos – e sinais claros de alcoolismo – como atitudes engraçadas, apenas. Quer um exemplo? Beber, Cair e Levantar, dos Aviões do Forró. Quer mais um exemplo? “Quanto mais o trem arrocha, mais meto pinga na veia”, canta o Leonardo, na música Por favor, Reza pra Nóis. Agora compreende o que eu quero dizer com “glamourização do abuso do álcool?”.

E se engana, completamente, quem acredita que tal glamourização só está nas redes sociais ou em baladas lotadas de pessoas que acabaram de entrar na maioridade penal. Porque ela também bate ponto em churrascos de família, nos quais aflora na atitude de tios que nunca deixam o copo do sobrinho esvaziar e no orgulho de pais que, aos amigos, dizem: “Viram como o meu filhão ‘guenta’?”. Percebe? E sabe o mais irônico? O mesmo pai que se orgulha de ter um filho que bebe uíscão pra c***, até ficar de olhos tortos, quando encontrou um baseado nas coisas do moleque, pensou seriamente em expulsá-lo de casa. E em interná-lo. E em espancá-lo. Mas ele (o pai do maconheiro sem vergonha) optou pelo de sempre: tomou um porre para esquecer. Mas bebeu “socialmente”, para ninguém pensar besteira.

E antes que você pense que eu sou do tipo que costuma repetir “uma erva natural não pode te prejudicar” por aí, faço questão que saiba da minha consciência em relação aos malefícios (sim, eles existem e já foram provados pela ciência!) relacionados ao uso da maconha. Só acho que o consumo de álcool – substância em muitos aspectos mais nociva do que a maconha – precisa ser tratado com mais seriedade e, principalmente, parar de ser visto como uma inofensiva brincadeira que, na pior das hipóteses, terminará em uma tatuagem no rosto à la Mike Tyson. Pois os riscos são bem maiores, acredite.

“Ricardo, não exagere! Meu pai, por exemplo, apesar de tomar cerveja todo dia, nunca deixou de ir ao trabalho, bateu o carro, deu vexame ou teve problemas no fígado!” alguém me dirá, tentando provar que estou forçando a barra em relação aos perigos do álcool. Pergunto: mas quem lhe garante que seu pai não é um alcoólatra? Ele? Por que estou dizendo isso? Porque temos a perigosa mania de achar que só é alcoólatra o ser que, por causa do vício, perde a capacidade de trabalhar, para de se barbear e se torna morador de rua. A dolorosa verdade – aquela que muitos não conseguem – ou será que não querem? – enxergar – é que estamos rodeados por alcoólatras funcionais, ou seja, viciados em álcool barbeados e perfumados que conseguem realizar funções profissionais perfeitamente, mas que, mesmo assim, ainda devem ser considerados – e tratados (no sentido médico da palavra) – como pessoas que têm problemas com a bebida. Compreende?

O que eu quero com este texto? Quero que pensem no quanto nós – quando transformamos em mitos os que não sabem a hora de parar de beber ou os que enxugam copos feito o Pagodinho – contribuímos para o acontecimento de tragédias como a morte do aluno da Unesp. Ou acha que ele teria bebido cerca de 30 doses de vodca se a nossa cultura não tivesse o estranho hábito de glorificar seres que conseguem sair vivos de autoenvenenamentos como esse? Acho difícil. É claro que ninguém o obrigou a exagerar e que, por isso, foi o principal responsável pela própria morte. Mas não foi o único, infelizmente. Pois enquanto continuarmos a tratar o consumo imoderado de álcool como atitude admirável e brincadeira sem grandes riscos, irmão, pessoas (principalmente os jovens, que comumente sentem necessidade de provar algo ao mundo) continuarão a optar por esse perigoso caminho para serem vistos – ao menos pela turma da facul ou pelos amigos do Facebook – como os “reis da manguaça”.

Obs: Confesso que já contribuí – e muito! – para que o abuso do álcool fosse visto como ato heroico, parte do estilo dos gênios. Mas depois de perceber que muitos dos meus heróis morreram de cirrose hepática – e não de overdose, como os do Cazuza- , repensei bastante, e, felizmente, cheguei à seguinte conclusão: nem tudo o que meus ídolos fizeram merece ser imitado, em outras palavras, precisamos de muito bom senso para separar os bons hábitos daqueles que levaram o Leminski a morrer como o Fernando pessoa, aos 44 anos.

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