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A pessoa mais fascinante que jamais conheci

Perdi pessoas muito queridas no decorrer da minha vida. De várias formas diferentes. Pessoas que, com certeza, me ajudariam a moldar quem sou hoje e perseguir os meus sonhos. Que ouviriam as minhas histórias e comemorariam comigo as minhas vitórias por menores que elas fossem. Pessoas com quem eu teria o maior prazer em dividir o meu coração, que hoje, ao longo de algumas noites, se faz em pedaços.

Nesse desabafo de uma madrugada qualquer, não falo de saudade nem da vontade de ter quem amo ao meu lado novamente, muito menos das lágrimas que, volta e meia, conversam comigo antes de dormir. Falo de como seria se aquela pessoa de quem tanto gosto estivesse ao meu lado mais uma vez, como sonho todos os dias.

Nem todas as pessoas que perdemos se vão. Algumas delas ainda ficam por aí, por aqui, entre nós. Seja um pai que pouco liga para os filhos, que sumiu e não se importa em ser ausente. Seja uma mãe que não aceita a ideia de que os filhos nascem para ter asas e voar. Seja algum parente próximo em estado de dependência química, doente ou impossibilitado de nos entender por igual – refém do álcool, do medo, de aparelhos para respirar, de um coração monitorado…

Essas pessoas, que tinham tudo para ser lindas – e na maioria das vezes são –, nem sempre nos deram a oportunidade de conhecê-las a fundo. Talvez por terem ido aos céus mais cedo do que julgamos justo; por terem vivido algum problema que as impossibilitava de se fazer companheiras ou presentes; ou por simples falta de vontade de estar ao nosso lado – algo que ainda me é difícil entender.

E assim, meio sem saber o que fazer, criamos seus perfis e personalidades em nossa imaginação. Damos continuidade à história. Ficamos imaginando e sonhando como elas seriam se estivessem conosco nos dias mais simples e rotineiros da nossa vida. Será que o meu pai era tão engraçado como penso que era? Será que a minha mãe sorriria mais caso ele ainda estivesse aqui? Será que o meu tio teria sido piloto, como ele sonhava, se não tivesse sofrido um acidente?

A verdade é que o amor que alimentamos por essas pessoas e as qualidades que atribuímos a elas nem sempre representam a realidade. Por não termos consciência de como seria, nos iludimos e criamos uma ficção que gostaríamos que fosse verdade, que nos acalenta um pouco o coração. Imaginamos o amor que todos dessa história mereciam receber. Inventamos um dispositivo para completar as histórias que ainda estão por vir.

Talvez o meu pai não risse do jeito que imagino, nem fosse tão inteligente quanto eu digo que era. Mas, neste momento, prefiro mentir para mim mesmo e acreditar nessa ideia que tanto alimenta o meu coração. Como ele não está mais por aqui, crio o que me convém, completo lacunas, imagino conversas, todas da minha fértil e saudosista cabeça. Talvez isso não mude o amor que sinto por ele, mas, com certeza, muda como sacio a minha saudade do que poderia ser e não foi.

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