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A solidão me fez ter uma recaída

Às vezes eu não sei usar o coração. Sinto como se eu não tivesse maturidade para tanto poder em mãos. Digo isso, pois, sempre que a solidão bate à minha porta repetidamente, procuro uma alegria momentânea que já me fez tanto ser tristeza. Sadismo, puro. Coisa de gente idiota. Algo que os especialistas dizem ser chamado de recaída. Eu, como a maioria das pessoas sensatas de tão loucas, não gosto de recaídas, elas me fazem mal e tiram a sanidade do meu coração. Não queria tê-las no meu calendário – elas sempre caem em dia ímpar. Quando beijo alguém que já amei, ou fico confuso me perguntando se esse amor ainda é atual, observo como a alegria e a tristeza de uma recaída vêm em uma fração de segundos; o beijo traz à tona toda felicidade que eu pedi para sentir, o abraço implora, de mansinho, para não ter data de expiração e a tristeza se vai num piscar de beijos. Pura ilusão, caso não fosse um alívio.

Depois de feito, reclamo, me julgo e, logo pela manhã, recebo o certificado de maior idiota do mundo. E pior, ainda leio – duas vezes, para me fazer ciente – e assino embaixo. Gosto de ter certeza que estou sendo idiota. Muitos me julgariam, diriam, para todos ouvirem, que mereço ser porta-voz de todo esse sentimento com gosto amargo-mágoa. Quem mandou voltar, mesmo que por uma noite, para quem já lhe fez tão mal? Besta, idiota! – meu inconsciente grita. Mas acontece que elas, essas pessoas, não estão aqui comigo nas noites em que me torno uma solidão bonita de ser ler. Elas não sabem como é grande a dor de quem não tem ninguém. Elas não sabem como é ter o teto do quarto como melhor amigo. Elas não sabem o que é sentir-se sozinho em meio à multidão. Elas ainda acham que solidão é só ficar sozinho numa sexta-feira à noite de feriado… Depois o idiota sou eu.

Incansáveis, elas dizem que a solidão é um remédio necessário. Dizem, seguras de si, que precisamos aprender a lidar com os nossos demônios. Mas elas não sabem o que é estar sozinho no mundo. Com tantos amigos, uma linda família e um trabalho que, de tão cotidiano não lhe faz coabitar com a própria loucura, é fácil hastear a bandeira da solidão. E eu que nada tenho? E eu que, de companhia, só tenho alguns livros e músicas? Quando não temos ninguém para abraçar, qualquer abraço vira convite de moradia. É muita fragilidade em jogo, dessa forma, um abraço vira um tiro que, de sangue, só tem lágrimas.

Entre o mal que ela me fez e o vazio com gosto de profundeza desconhecida que sinto, eu fico entre os dois. E, sabendo que estou fazendo tudo errado, brinco de alternar os vazios. O carinho dela, no fundo, também não deixa de ser um enorme vazio, mesmo que eu ria com ternura no seu colo. A verdade é que me iludo para ser um pouquinho feliz, finjo, calando as minhas opiniões, que o mal que senti é passado, mesmo que amanhã eu relembre que ele é todo presente. A nossa companhia é só uma solidão abraçando a outra.

Assim vou me afundando em mim, tentando, aos pouquinhos, tampar alguns buracos com outros ainda maiores. Não sabendo se lido com a tristeza de agora ou com a que virá pela manhã, tento encontrar maneiras de lidar com a solidão que tanto se comporta como falsa amiga. Com tantos medos colecionáveis, vou vivendo de breves recaídas até conseguir ficar em pé sozinho. Fraco? Imaturo? Louco? Inseguro? Eu por inteiro. Queria poder ser melhor, mas, sabe como é, a minha solidão me toma muito tempo. Mas, como sempre, poucos me entenderiam, por isso escrevo, pois, como conversar com o teto do nosso quarto antes de dormir, escrever é uma linda e eterna solidão.

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