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Acorda para a vida

Você já parou pra pensar na pressa dos nossos dias? O despertador toca e praguejamos sua existência. Os palavrões saem aos montes antes mesmo de levantarmos da cama. Apertamos o botão da soneca até que ele desapareça da tela do celular e… “Puta que pariu, tô atrasado!”.

Agora, repare: eu disse levantar, algo muito mais simples e sem significado do que acordar.

Nossa oração matinal é durante o banho quente que tomamos às cinco e meia da manhã “Por favor, que a água não acabe agora, que a água não acabe agora, que a água n…” e preparamos um café forte o suficiente para manter os olhos abertos por mais algumas horas até a próxima xícara. Entretanto, mesmo forte e amargo, o café não nos acorda.

Nas ruas, as pessoas mal se olham nos raros acenos de cabeça e o aviso no aparelho celular de que o volume alto dos fones de ouvido pode causar danos à audição faz com que respostas inteligentes e educadas, como um “Vai se foder!”, venham a nossa cabeça.

A vida ferve. Mas por quanto tempo nossa pele suportará esse calor de cem graus?
Tanta pressa que não abrimos a janela pra ver que a hora de acordarmos coincide com o nascer do Sol e que aquela cena poderia nos trazer uma alegria imensa se não estivéssemos correndo pra pegar um ônibus lotado. “Porra, motorista, não cabe mais ninguém aqui! Cê não tá vendo?!”. Essa é uma frase que você, possivelmente, teria dito se o estudante espremido à sua frente não tivesse se adiantado pra gritá-la.

Veja como é nervoso esse mundo de muito barulho e palavras escassas, de remédios fáceis pra aliviar nossa dor por algumas horas e confundir nossos sentidos. Esse mundo raso de tantos nados e tão poucos mergulhos.

E, ainda assim, nos sentimos no direito de apontar o dedo pra diminuir o outro que, assim como nós, tira, todo mês, vinte e nove e noventa da conta pra pagar a Netflix que os amigos disseram que iam dividir igualmente o valor, mas, no fim, sobrou tudo pra um só, o dono do cartão de crédito.

Minha avó sempre falava “acorda pra vida, moleque!”, porque eu vivia com a cabeça na lua. Acredito que “acordar pra vida” signifique viver, despertar, recuperar os sentidos e não apenas levantar da cama com o despertador. Significa parar um pouco no final do expediente e olhar pro céu. Caminhar descalço na praia. Ler um livro, tomar uma taça de vinho. E, no dia seguinte, ao levantar e xingar um pouco o despertador – já que ninguém é de ferro –, abrir a janela. Significa ser esperto o bastante para desfrutar dos pequenos prazeres que fomos abandonando dentro da nossa rotina pesada.

Não se trata de uma competição. Não precisamos ser assim, tão velozes. Vamos parar e respirar um pouco, antes que olhemos pra nós mesmos na frente do espelho e não encontremos resposta para a pergunta mais corriqueira deste século: que porra é essa que eu tô fazendo com a minha vida?
Tudo bem que nem todo mundo a incrementa com palavrões, mas não altera o significado desse aperto de mente.

Mas, voltando pro ponto principal do que quero dizer… te juro, a vida é muito mais bonita quando decidimos vivê-la em sua completude. É claro que a pressa ainda vai existir, o cansaço ainda vai existir e o motorista ainda vai continuar entupindo o ônibus de gente, mas você estará vendo o mundo sob outra perspectiva. Notei que a mudança do ângulo de como se observa a coisa acaba mudando a própria coisa observada.

Isso parece uma teoria ridícula, mas não é. Nós só precisamos acordar. Acordar pra vida.

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