p-bru-mulher Esta foto é sua?

Afinal, você é mulher

A gente tem que ser a melhor. Na escola, na faculdade, no trabalho. Tem que tirar a melhor nota. Fazer o melhor TCC. Preparar o melhor relatório. Pra enviar pro Chile. Pra algum líder apresentar como se fosse obra dele na reunião de liderança. Tem que ter o melhor sorriso pra aguentar chefe tirano, a melhor resposta na ponta da língua pra surpreender colegas de classe, o melhor decote pra agradar professor safado. Que não é gola rolê. Mas que também não é, assim, um rasgo até o umbigo. Porque se te enfiam a mão nos peitos, você reclama, né, querida?

E a gente tem que ser quietinha. Não pode reclamar de tudo, porque mulher reclamona é malcomida. Mal-amada, mal fodida. Vai dar meia hora de buceta para ver se bota um sorriso nessa cara, vai. Mas não conta pra ninguém, tá? Porque se descobrem que ele é o terceiro cara com quem você tá transando no mês, meu bem, você vira chacota. Lixo. Mulher descartável. Vão te amassar e jogar fora. Porque homem até gosta de mulher que sabe fazer um bom boquete, mas pra casar, ele vai preferir a moça de família, viu?

E a gente tem que casar. Ter um par de filhos loiros pra pentear antes de levar pra escola, ter um labrador lindo pra brincar de jogar bolinha pro alto no sábado de manhã, ter um carro de uns 50 mil, comprar um sobrado naquele bairro charmosérrimo de classe média. Nem que isso custe 20 anos de financiamento e 15 horas extras de trabalho por semana. Mas tem que tomar cuidado também pra não trabalhar demais e acabar esquecendo a família. Porque homem, minha filha, se não encontra em casa, vai procurar na rua.

E é por isso que a gente tem que estar sempre linda. Depilada, maquiada, cheirosa e bichectomizada. Ah, e magra. Uma celulitezinha aqui e outra ali até vai – porque homem também não gosta de sair com mulher que só come salada. Mas tem que ter limite, né. De dia de semana, a gente faz a dieta dos pontos e toma muita água. De fim de semana, uma cervejinha e uma porção de fritas pra acompanhar o namorado e celebrar a vida.

Porque a gente tem que saber sorrir, amigas. Ora mostrando os dentes, ora só insinuando uma leve alegria. Mas sem nunca fazer escândalo, porque gente efusiva é uma coisa hor-ro-ro-sa. Melhor ser discreta, contida, reservada. Falar baixo, acenar como uma miss, se comportar como uma lady. É aquela velha história, né: dama na rua e puta na cama. Dá um ar de mistério, de caça ao tesouro, de decifra-me ou te devoro.

Feliz? Ah, a gente tem que ser feliz também, é claro. Mas desde que a gente seja a melhor. Desde que a gente seja quietinha. Desde que a gente consiga um bom casamento. Desde que a gente esteja sempre linda. Desde que a gente seja discreta. Enfim, desde que a gente saiba que felicidade é bom, mas que a nossa liberdade pra ser feliz termina onde começa a do outro. E tudo que é do outro sempre é mais importante, meu bem. Sempre. Afinal, você é mulher. Você nasceu pra agradar. Pra ser doce. Pra servir. Pra embelezar o mundo.

Falando nisso, vai lá passar um rímel, que parece que você tá doente com essa cara limpa. A tia te espera. Vai lá, meu amor. Vai lá.

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