Esta foto é sua?

Agora que você foi embora

Dá pra ver nessas fotos tão nítidas que eu sou o vinho seco que joguei na taça e – mais ainda – a taça que se quebrou no assoalho pelo tanto que minhas mãos tremiam.

Eu sou o vidro que cortou meu dedo e talvez seja o algodão encharcado a estancar meu sangue. Por um minuto, fui meus olhos arregalados pelo medo daquele tom intenso de vermelho.

Acho que nunca permiti que ninguém além de você me fotografasse por toda timidez que existia em mim. Mas, olha, quando você foi embora eu percebi que um dos meus maiores desafios seria estar bem comigo mesma, porque eu precisava me sentir segura. Me sentir bonita não só porque você disse uma vez que eu era bonita, entende?

Foi quando notei que eu também sou tudo aquilo que você não viu, vou muito além do que pude mostrar pra você… Tenho uma blusa azul marinho quase no joelho e, por causa dela, tive certeza que sou minhas coxas nuas escondidas. Você não saberia de certas curvas se eu não tirasse a blusa.

Mas agora eu tô despida, tá vendo!?

Tô ali jogada por sobre a cama e nem me lembro da última vez que dobrei os lençóis, porque só sou cama quando se tem bagunça nela. Organização nunca foi o meu forte.

Naquele dia do ensaio, eu também fui o café no fogo que você não conseguiria dizer se estava amargo, porque sequer olhou devagar pra foto. Sua mania de fazer tudo depressa demais acabou te levando pra longe de mim muito rápido e penso que talvez isso, de alguma forma, tenha sido bom. Algumas histórias de amor foram feitas para terem finais precoces e quem sou eu pra discordar disso?

Porém sempre achamos que podemos tentar mais uma vez até que o próximo tombo aconteça.

Na última foto do ensaio eu fui meus braços esticados. Fui o grito de socorro no silêncio daquela casa desconhecida. Tudo pra te mostrar que eu tava nua. Completamente nua. Mas doeu, porque se seus olhos parassem quietos em algum canto, talvez fossem capazes de me encontrar.

Em vez de ficar acanhada no canto da sala, vesti minhas roupas, levantei a cabeça e saí. Não sabia pra onde ia, só tinha certeza que chegaria a algum lugar. Naquele instante, isso era suficiente.

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