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Alguns tons de vinho tinto

A taça de vidro, sem vinho nem vida, ainda veste a prova irrefutável de que seu batom passou por aqui e, agora, repousa sozinha sobre a mesa regada com as lembranças de ontem, descansa entre as migalhas de um papo fluente, como nenhum outro, e permanece quase invisível entre os restos e os rastros de um jantar que foi nosso melhor clichê.

O salmão foi devorado por duas bocas que insistiram em continuar famintas, mesmo após o fim precoce daquela sobremesa hipercalórica que fiz graças à benção do Google. Enjaulada dentro do iPod que tocava em looping, a Norah Jones nos presenteou com um show particular, e não se importou em repetir aquele jazz afrodisíaco, cantando sem nos cobrar gorjeta ou cachê.

Estávamos cegos, completamente imersos em uma tempestade cadente de nós. Sabíamos que o mundo todo podia esperar lá fora, mas, dentro de mim, dentro dela, havia uma urgência, uma pressa, uma gana, visível mesmo quando estávamos calados. Chupávamos-nos através das retinas, nunca antes tão magnéticas e propositalmente corajosas. Prorrogávamos as piscadas, não queríamos perder nem mesmo milésimos daquele filme, estrelado e dirigido por nós.

Estávamos surdos, absurdamente entregues a um frenesi com potência estimulante de ecstasy. Dançamos, giramos, rodopiamos, flutuamos, tropeçamos, rimos e até que enfim, atrasados, caímos no chão e ali ficamos silenciando nossas gargalhadas com beijos dos mais variados tipos, que inventamos ali mesmo, sobre o tapete que nunca antes na história daquela casa, havia sido tão bem usado.

Não precisávamos de cama, nem de calma. Pra quê? Por quê? Tínhamos um emaranhado bem encaixado de almas. Não suportávamos mais vestir aqueles trapos, que horas antes, até pareciam indispensáveis e, claro, foram escolhidos como quem seleciona um esplêndido traje de gala. Rasgamos nossa pele desnecessária, queimamos qualquer possível resquício de pudor e ficamos apenas com aquilo que realmente tem valor.

Censuramos a censura e, ali mesmo, ofegantes, entre gemidos, nus e na contramão do tapete, decretamos nosso direito pleno e inviolável de total liberdade. Consumimos-nos sem culpa, com gula e como os bichos: mordemos a carne, arranhamos a pele, atritamos nosso íntimo e, enfim, nos rendemos ao maior e mais indivisível prazer.

O jantar acabou, o vinho acabou, o Petit Gateau acabou, o café acabou, a noite inteira acabou, mas continuo morrendo de fome e não vejo a hora de te engolir novamente.

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