Amizade colorida Esta foto é sua?

Amizade colorida

Eu disse pra ele esperar quando o meu celular tocou e fui atender lá fora no quintal. Tava uma noite fresca e então eu inspirei com calma e disse alô. Era o Felipe querendo saber qual dia mesmo eu chegava. Prometi mandar um e-mail com os dados da passagem de ônibus e reclamei, como sempre, daquela cidade não ter nem aeroporto. Nos despedimos. Desliguei bufando, também porque o celular sempre demora pra qualquer coisa e isso tem me irritado tanto, que penso em comprar um novo; mas tem essa viagem.

Quando voltei pra sala, ele já estava sentado e tinha tirado os sapatos – acho que por educação – ele gostava de colocar os pés no sofá. A TV, que tinha ficado ligada a noite toda, agora mostrava na tela uma pasta com o nome do filme “o sétimo selo”, que ele tinha citado quando saímos pra tomar uma cerveja e eu contei que adorava qualquer coisa em branco e preto, inclusive as calçadas do Rio de Janeiro e acrescentei não saber por que eu havia dito isso – ele riu de mim, sua risada não fez som algum (deve ter um sido um sorriso).

Enquanto assistíamos, ele trocava mensagens de texto e, pela hora, acho que para garotas com quem ele deve sair quando não tem nada pra fazer. Eu nunca pergunto sobre suas namoradas, mas se um dia perguntasse seria algo sobre a profissão delas. Talvez eu sinta uma curiosidade sobre o tipo de mulher que o encanta.

A perna dele tocou a minha sem querer e aquilo me incomodou um pouco. Parei de prestar atenção no filme e propus fazer pipoca pra gente. Ele topou, desde que não fosse de microondas. Eu não sei fazer pipoca de outro jeito, disse. Peguei a panela que meu pai usava e sempre inventava receitas diferentes: pipoca com alecrim, com orégano, com alho, azeite, queijo. As melhores noites da minha infância, eu passei com meu pai, pipoca e algum filme de terror que ele me deixava escolher. Sinto tanto a falta dele.

Enquanto ele girava a manivela da pipoqueira, falamos do nosso amor por São Paulo e de nossas impressões do novo chefe. O filme continuou em preto e branco e nós, em silêncio. Ele tem um furo no lóbulo da orelha esquerda e assistiu ao filme sorrindo. Quando até os créditos desapareceram, era bem tarde. Acompanhei ele até a porte e pedi que girasse a chave para abrir. Disse que assim ele voltaria mais vezes e precisei explicar (pra mim) em voz alta que era uma piada. Ele sorriu como pro filme e foi embora.

Entrei no quarto para ver a data e o horário das passagens para enviar a Felipe, mas estava com tanto sono, que deixei pro dia seguinte.

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