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Amor bom é amor fácil

Amanda gosta de Roberto que gosta de Luísa que não gosta de ninguém. Maria gosta de Jaime que gosta de Alice que gosta de pizza marguerita. Francisco gosta de Júlia que também gosta de Francisco, mas tem uma história mal resolvida com o ex, não tem tempo pra encontros, não sabe flertar direito e prefere ficar sozinha no sábado à noite, ela diz, e confessa que de vez em quando sente uma vontade repentina de entrar tão profundamente em alguém a ponto de lançar uma fresta de luz até no esconderijo mais profundo de sua alma.

Claro, Júlia.

O amor é uma delícia, só dá trabalho.

A verdade é que nosso estoque de desculpas para não nos envolvermos amorosamente – ou ao menos não com alguma profundidade – é infinito.

Toda a lorota de falta de tempo, falta de interesse ou “ninguém presta” só serve pra esconder (e muito mal) o absurdo de nosso medo desenfreado do amor. O exercício da entrega está em desuso, e não é de hoje.

A preguiça de socializar, a baixa autoestima e sobretudo a falta de paciência pra tudo que não é instantâneo é a receita perfeita pra uma geração de solitários autoboicotadores.

A preguiça se estende a todas as relações sociais – o que torna as coisas um pouco piores. É difícil querer sair pra ver a cidade. É difícil encarar a odisseia de conhecer – e amar – alguém. Toda essa energia primaveril ficou em alguma parte de nosso passado que já não sabemos onde está.

O que a gente ainda não entendeu é que os muros que construímos em torno de nós mesmos não nos protegem dos socos do mundo: você vai se apaixonar, e eventualmente as coisas não sairão como você planejou. A nossa preguiça não pode evitar o amor, porque ele é inerente ao que é humano.

Mas que dá trabalho, dá. Porque precisa conhecer os detalhes, prestar atenção nos trejeitos, fazer do outro um mosaico pra enxergar o todo e também os pedacinhos. Precisa não olhar só o próprio umbigo. Precisa ser gentil consigo e com o outro. Precisa cuidado. Precisa coragem.

E a gente não tem coragem. A gente não quer trabalho. A gente quer pedir um delivery e esperar só trinta minutinhos. A gente quer mensagens instantâneas e contatinhos e manda nudes – ou, quem sabe, nem isso.

A gente quer, no fundo, que alguém voe sobre os nossos muros – desculpa, colega, não vai rolar.

Se essa coisa de amar já dá trabalho porque gosta, por que a gente insiste em complicar ainda mais? Por que não manda mensagem quando quer mandar? Por que não convida pro cinema? Por que não joga as cartas em vez de jogar a toalha? Por que a gente não faz questão de exercitar esse negócio que a gente nasce sabendo?

Amor bom é facinho. Manda textão de madrugada. Manda áudio com mais de três minutos. Sai pra conversar olho no olho e quem sabe tomar um sorvete se o dia estiver bonito.

Amor bom não cobra satisfações e não tem medo do exagero. É como ser tão livre a ponto de não ter medo do ridículo.

A vida já é difícil demais. Que pelo menos o amor nos poupe – e a gente não poupe amor.

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