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Amor próprio e desapego caminham juntos?

Essa semana eu convidei um amigo para tomar um café e conversar. Comemos coxinha, demos risada e anotamos nossas metas para 2016 em guardanapos com vestígios de óleo de canola. Tudo ia muito bem até que eu decidi desabafar sobre minha vida amorosa. Comentei, num desabafo de rotina, que estava começando a gostar de um cara com quem fico há algum tempo e não tenho certeza se esse sentimento é correspondido. Não era nada demais. Nada que já não tenha acontecido uma dúzia de vezes antes. Eu só queria um ouvido. Era apenas um comentário. Mera vontade de dividir mais um capítulo dessa novela que eu chamo de vida amorosa.

Mas não. De repente, não mais que de repente, o meu agradável café da tarde regado a risadas e recheio de catupiry se transformou numa verdadeira palestra motivacional sobre amor próprio e desapego. O sermão se baseou em ressaltar quão magnífica eu sou e enumerar minhas qualidades em uma lista que chega aos números ordinais que eu nem sei pronunciar. Assisti atenta à sessão afaga-ego, fiquei envaidecida pelos elogios, mas confesso que estou até agora tentando entender em que momento eu disse que estava com problemas de autoestima.

Falei para ele que está tudo bem com a minha autoestima. Que eu tenho plena noção de todas as minhas qualidades. Que eu também me acho linda, interessante e engraçada, mas que começo a duvidar da minha inteligência quando me sinto incapaz de compreender essa lógica na qual o fato de amar a si mesmo exclui a possibilidade de gostar de outras pessoas.

A verdade é que eu nunca compreendi essa história de tratar a capacidade de “pegar sem se apegar” como uma grande vantagem; como se o sinônimo de ser bem resolvido fosse ser imune a sentimentos. Da mesma forma, não entendo porque deveríamos pensar que as pessoas mais afetuosas necessariamente têm problemas de carência ou baixa autoestima. Simplesmente não faz sentido pensar que amor próprio e desapego caminham juntos, como se o fato de gostar de si mesmo excluísse a vontade de desfrutar de outras companhias.

Realmente acredito que quem se ama aprende a selecionar melhor as pessoas a quem direciona afeto. Mas confesso, do baixo desses meus poucos anos de observação da espécie humana, que as pessoas mais bem resolvidas que eu conheço são absolutamente capazes de gostar genuinamente dos outros porque gostam muito, muito mesmo, delas mesmas.

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