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Ao perder um amor, ela ganhou o mundo

Ela tinha o coração inquieto, a alma curiosa e o olhar faminto. Sonhava em devorar o mundo de uma vez só. Ler todos os livros já escritos, assistir todos os filmes já produzidos, caminhar por todas as ruas de todas as cidades, principalmente aquelas que ninguém nunca ouviu falar. Ela amava o desconhecido. Sonhava em ver de perto a Monalisa, sentir o cheiro de croissant pela manhã, ficar tonta com as luzes da Times Square em Nova York, tocar, mesmo que por apenas alguns segundos, as flores do jardim de Monet. Sonhava em conhecer a alma das pessoas, conversar com elas olhando nos olhos e ouvir suas belas e tristes histórias de amor.

Mas antes disso, ela conheceu o amor. Um cara um pouco mais velho, que pegava no sono no meio dos filmes e não estava nem aí para a poeira acumulada pelo tempo em seus livros. Animada, ela pensou que finalmente descansaria em alguém. Adiou seus sonhos. Largou a liberdade para depositar nele a ideia de um “para sempre”. 

Quando ela decidiu ficar a seu lado, ele avisou que partiria. Claro! A armadilha clássica do falso amor.

“Quando você voltar, eu não estarei mais aqui”, ela disse com a voz suave e desarmada pela desilusão. Mesmo assim, ela ainda tentou, vulneravelmente aproximá-lo, trazê-lo de volta, mas ele já estava há muitos quilômetros fora daquela história de amor.

Desiludida, ela resolveu fazer a clássica arrumação da velhas gavetas. Tirou as camisas dele do seu guarda-roupa e, nesse movimento continuo e obrigatório de resgate de si mesma, se deu de cara com velhos sonhos esquecidos debaixo de travesseiros que, de uma hora para outra,  também ganharam a poeira do tempo perdido.

Desse jeito, sem rumo, fez as malas, e partiu também.

Foi aí que ganhou o mundo. 

Forçada a não viver mais as noites de Netflix embaladas pelo som do ronco dele no sofá, acabou por ganhar shows de música clássica nos parques. Perdeu de ouvir suas piadas datadas e preconceituosas (que na hora ela achava sem graça, mas como ele era especial pareciam apenas de mau gosto). Perdeu a viagem de final de semana para a mesma praia de sempre, e ganhou paisagens tropicais na Tailândia. Ela perdeu o tradicional tepanhaki de quinta-feira a noite e ganhou macarronadas em Roma. Perdeu os jogos de futebol das tardes de domingo, e ganhou caminhadas no Central Park num verão nova iorquino.

Ao perder um amor, ela ganhou o mundo. E ela não ganhou apenas o mundo. Ela ganhou o seu mundo, ela ganhou a si mesma de volta. 

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