Bem me quer, mal me quer: o que leva uma pessoa a deletar a outra nas redes sociais Esta foto é sua?

O que leva uma pessoa a deletar a outra nas redes sociais

É fato que entramos em um estágio tecnológico em que as pessoas do nosso círculo afetivo aparecem mais para nós virtualmente do que presencialmente. Eu quero falar sobre um aspecto que pode até parecer inofensivo, justamente por ser considerado como subjetivo, abstrato, imaterial, mas que muitas vezes nos afeta em maior ou menor grau: a rejeição em espaços virtuais. Nelas o contrário de amar é deletar.

No caso do Facebook, por exemplo, conheço diversas pessoas que quando postam algo e depois de alguns minutos percebem que aquilo não obteve ibope (curtidas), apagam o conteúdo logo em seguida. Se você for pensar, postar algo pode significar a sua opinião sendo testada. Quem vai me achar engraçado? Inteligente? Quem vai sentir preguiça? E agora que eu me arrependi do que escrevi? Será que pega mal apagar?

Outra atitude que incomoda bastante é quando somos deletados por alguém sem mais nem menos. Estou pra encontrar alguém que goste de se sentir rejeitado. No Facebook isso pode acontecer por diversos motivos: limpeza de inativos (gente que não interage com você), discordâncias de pensamento, preguiça gratuita, atrito com a pessoa na vida real, ou motivos dos mais absurdos. Tem gente que diz que não liga, tem os que só ficam chateados apenas quando conhecem pessoalmente quem apagou. Perguntam-se o porquê do “ex-amigo” não querer mais “olhar na sua cara” virtualmente. Pior ainda se ocorre um bloqueio. Bloqueio pode configurar medida “anti-stalker” ou algo mais grave. Existe gente que inclusive toma satisfações por ter sido deletada. Existe o inverso também: aquela pessoa que evita deletar qualquer um dos seus contatos indesejados, por querer ser observado pelo inimigo, cultivando nele uma espécie de inveja consentida.

Mas, a rejeição às vezes pode acontecer sem que você saiba. Eu, por exemplo, já deixei de apagar alguém que eu tive contato duas vezes na vida e que falava bastante groselha no Facebook, simplesmente para ter de quem falar mal. Tirar do seu feed (deixar de seguir) costuma ser uma “pena mais leve” para alguém que você não quer ver por um tempo – para que o coração não sofra recaída -, uma amiga que você gosta, mas que exagera no radicalismo das causas que defende, ou alguém que você sabe que vai ficar chateado e você prefere ignorar de forma oculta. Acontece também de brigarmos com alguém pessoalmente e para atingir essa pessoa o “deixar de ser amigo” acaba funcionando como uma espécie de “tapa na cara final”, já que só um dos dois pode fazer isso, o que faz, acaba “saindo por cima”.

No Instagram a vaidade vai além. Ostentar seguidores e seguir poucas pessoas atesta uma espécie de status, ou saldo queridista. É muito comum gente aficionada por essas quantidades apagar pessoas a fim de aumentar a disparidade entre admirados e fãs. Nessa rede social da mais trabalho para descobrir quem te segue e essa (quase) falta de rastros permite que as pessoas parem de se seguir com mais frequência. Não estranhe se você notar em algumas caixas de comentários – principalmente de famosos – gente oferecendo trocas de like, ou “vendendo” seguidores.

As fotos de perfil geralmente atestam a tese do “ser aceito”. Dentre as nossas 500 melhores fotos, geralmente escolhemos a melhor das melhores – sem contar a velha e infalível tática dos óculos escuros que dificilmente deixam alguém “feio”. No Tinder a foto torna-se praticamente o item principal de critério para darmos ou não o “match”: “quem vê Tinder não vê coração”. Existe uma falsa ilusão inicial de abundância, em que temos um poder de escolha que mais a frente vai ganhando um filtro mais exigente e isso se define pela conversa que se estabelece no chat, pelas fotos que serão trocadas posteriormente, ou de qual defeito você tentou esconder inicialmente e entrará em evidência. Sim, isso vai contar num encontro presencial, já que ele desconstrói (ou confirma) nossa versão ultramelhorada anti-rejeição.

A verdade é que na vida ou nos espaços virtuais nós sempre acabamos por evocar “vigilantes simbólicos” que possam vir a nos criticar. Falo de pessoas que não necessariamente convivem conosco hoje em dia, mas que em algum momento de nossas vidas representaram uma espécie de censura, capaz de frear alguma atitude nossa, deixaram-nos inertes por medo de julgamento. É uma espécie de receio antecipado que nos coloca mentalmente em uma sensação de insegurança. Mas se parar para pensar, sempre que você escrever algo supostamente agradável correrá o risco de alguém achá-lo demagogo. Se você é tido como uma pessoa política em suas opiniões, possivelmente abrirá espaço para dois julgamentos a seu respeito: alguns dirão que você é em cima do muro e não se compromete, outros dirão que você é um bom jogador, ou uma pessoa ponderada, que sabe olhar os dois lados de uma questão. As pessoas normalmente precisam dessa divisão binária para classificar suas afinidades. Sabendo que ninguém é unânime, e que muitos de nós passamos por aquele momento de carência virtual “ninguém me cutuca no Face” o jeito é ser menos dependente dessas aprovações. Você não tem 2433 amigos, você tem seguramente uma ou algumas dezenas deles. Você não precisa de 2433 amigos, e nunca vai conseguir administrar 2433 amigos, dá muito trabalho. O jeito é praticar o bom e velho desapego, e isso não necessariamente quer dizer uma solução numérica, como sair deletando um monte de contatos. Quer dizer apenas que existe vida fora do Facebook.

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