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Biópsia de um desejo

A casa é um caos só.

No aparador da sala se pode ver a marca que a garrafa de vinho fez no vidro. As marcas. Do lado até tem um guardanapo, mas provavelmente ele foi dispensado quando alguém disse “depois eu limpo”. Talvez a pressa fosse de outra coisa. As taças, usadas, dão conta de que eram apenas os dois. Pra que mais? Resta em cima da mesa uma travessa com o resto frio de algo preparado ali mesmo. Ainda se pode se sentir o cheiro do carinho com o qual o prato foi feito.

O sol entra pela varanda sem pedir licença. Ilumina uns quadros na parede e reflete na cristaleira que guarda as outras taças, copos e peças que não foram usadas. Dão um brilho multicor ao teto, que parece transmitir um ar de pureza ao ambiente com sua cor tão branca. A casa é silêncio. Pode-se ouvir as risadas de algumas crianças, talvez vindo da piscina no play do prédio. Nada mais. É sábado, diz o calendário digital sobre uma estante. Não há pressa de abrir os olhos.

O primeiro olhar mais apurado mostra uma camisa no chão no corredor que leva aos quartos. Embolada, parece ter sido jogada sem cuidado algum. Com pressa, certamente. Tudo ainda é suposição, mas certamente se chegou a algum ponto da noite em que todos os protocolos já tinham sido seguidos e só restava uma coisa a ser feita entre as duas bocas – que primeiro marcaram-se de vinho e depois se mancharam de vontade.

Mais alguns passos e é possível ver um quadro. Caído. Vidro quebrado. Para quem tem um pouco mais de imaginação fica bem clara a cena dos dois corpos se agarrando e tentando achar o caminho do quarto na confusão de braços, beijos, pernas cambaleantes e a ardência de chegarem o mais rápido possível ao colchão. Jaz ali a outra camisa e se vê, pela fresta que a porta deixou, o contorno preto do início do jeans.

Pisa-se em alguma coisa: uma camisinha usada foi largada bem na entrada do cômodo. Suja, é a prova de que não foi possível esperar. A necessidade foi tanta que o primeiro ato aconteceu ali mesmo, entre o vidro quebrado e o aperto do corredor. Ou a queda pode ter sido provocada depois da gozada? Fica a dúvida.

O resto das roupas estão espalhadas pelo quarto. Não é possível definir a ordem exata em que foram arrancadas, se foram gentilmente tiradas, quem tirou de quem cada peça. Sabe-se, apenas, que uma calcinha preta foi parar no ventilador de teto e ali ficou. Ninguém irá reparar que ali está até que seja preciso vesti-la novamente.

Em cima da cama, é possível ver o pé que sai pelo edredom e as costas de um. Aninhada nos braços do outro, os cabelos desgrenhados servem como cortina que não deixam ver mais nada de inapropriado. E os dois dormem como se não precisassem nunca mais acordar. Exaustos, de certo, não tiveram muito tempo de pensar quando o desejo, finalmente, foi mais forte do que a cena de “vinho-conversa-jantar-sobremesa”.

A fome era de um pelo outro. As marcas em um dos braços deixam claro que alguma força esteve presente. Talvez ela curtisse receber alguns tapas. Talvez, tendo a chance de ver as costas dele, se constatasse que as unhas foram devidamente usadas para marcar a pele e extravasar o prazer. “Me arranha”, diriam aquelas linhas – ainda bastante vermelhas. Talvez gerem alguma reclamação quando a água do banho bater no corpo.

Tudo isso visto, não há mais o que se argumentar. Não haveria ou caberia nenhum tipo de defesa. “Eu quis resistir”, poderia dizer um deles. Mentira. Não houve resistência. Não seria preciso forçar alguma história. Estava tudo muito claro, como as evidências de um crime perfeitamente arquitetado para deixar todos os rastros possíveis até se chegar a conclusão mais óbvia: o desejo era latente.

Voltando rapidamente até a cozinha e se deparando com toda a louça por lavar, repassando os olhos pela sala e correndo novamente pelo quarto, o atestado de “Noite Perfeita” poderia ser emitido. O que desejariam mais aqueles dois, que agora respiravam lentamente a paz de suas manhãs pós-sexo? Nada além de acordar tranquilamente.

E foi por isso que ninguém atrapalhou os bons sonhos. Os celulares no mudo, a janela do quarto fechada, a cortina esticada, tudo deixado pra depois. Não haveria uma alma capaz de fazê-los levantar antes da hora que desse na telha. Olhariam a hora e diriam, certamente, “ah, tá cedo”. De certa forma, sim. De outra, não.

Foi tarde que uma terceira pessoa, que tinha a chave daquela unidade no quinto andar, percebeu tudo que estava acontecendo. E não tendo coragem de fazer nada, foi apenas capaz de escrever um bilhete e deixar junto à garrafa de vinho vazia na sala:

“Acabou o pão”.

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