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Breaking fuckin’ Bad – O adeus à melhor série da história

[Texto com spoilers de Breaking Bad; não leia caso não tenha terminado de assistir a série]

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O Rei está morto. Vida longa ao Rei.

Um velho nerd professor de química descobre um câncer de pulmão e começa a fabricar drogas para deixar dinheiro à família. Só é preciso dizer isso para alguém se interessar por Breaking Bad.

Aí começamos a falar de Walter Jr, o filho com deficiências; sobre Skyler, a esposa grávida. Depois de contextualizarmos a merda em que WW vive, Jesse é o personagem citado, um moleque completamente perdido na vida, mas essencialmente do bem. Há o cunhado que trampa na narcóticos, há Saul, o advogado mais picareta do universo.

É basicamente nessa sequência que todos nós explicamos aos ‘novatos’ do que se trata BB que, até agora, é a melhor série de toda a história. A melhor construção de personagem já vista em qualquer formato. Nenhum personagem de livro, de cinema ou de teatro alcançou a complexidade de Walter White. Breaking Bad não é apenas obra de arte, assim como nos referimos a uma grande pintura, é também uma obra-prima como Mona Lisa, como a 5ª sinfonia de Beethoven, como a literatura de Shakespeare. BB fica para a posteridade. Por séculos será referência de narrativa e construção de personagens. Vince Gilligan e seus roteiristas deveriam, já na próxima semana, ter seu trabalho exposto no museu do Louvre. Bryan Cranston tem ao seu lado o personagem mais forte, carismático e envolvente entre todos os trabalhos de ficção de todas as eras. Não houve na história da humanidade um arco dramático tão forte, detalhado e sensível. Jesus não é tão bem construído como Walter White.

A genialidade dos detalhes sempre foi algo presente na série. Câmeras GoPro registraram cenas impensáveis, diálogos fodas irão acompanhar toda uma geração – ‘I am the one who knocks’ – além de atuações insanamente monstruosas. Tudo parte de uma alquimia perfeita.

Essa é, acima de tudo, uma série sobre o ego. Sobre a transformação gradual e sem volta que o poder exerce sobre nós. Walter White era um fudido. Depois dos cinquenta anos de uma vida de merda e à beira da morte, descobriu algo em que era bom; descobriu algo em que ele não era descartável. Como julgar? Agiríamos diferente se fossemos nós a viver tal escalada?

E, em meio à desgraças, risos, dinheiro e metanfetamina, uma trilha sonora de altíssimo calibre dá o tom. Perdi as contas de quantas vezes pensei ‘nossa, olha que animal essa música’. A última trilha da última cena é o ápice da musicalidade que impera no seriado. Claramente a cena foi construída ao redor da música e não o contrário, como de costume. Não consigo expressar o quanto fui pego de surpresa por ‘Baby blue’. Esse era SÓ o apelido pelo qual eu chamava a minha filha logo que ela nasceu; sim, por conta dessa música. Jamais tinha associado à Breaking Bad. Jamais conseguirei desassociar.

Como Vince Gilligan já havia anunciado antes: ‘All bad things must come to na end’ (As coisas ruins terão seu fim). E, de forma catárquica, assim foi. WW morre herói, tendo em vista que, mais uma vez, fez de tudo pela família. WW morre herói ao aparecer na frente de Skyler para uma última conversa e – pela primeira vez – consegue dizer:

‘Eu fiz isso por mim. Eu gostei disso. Eu era bom e estava vivo’.

Quem, nessa hora, analisa a compreensão de Skyler, sente a intensidade do arco dramático de toda a série. Tivemos, aí, um momento para se acabar no choro. Choro esse que não cessou durante a despedida dos filhos. A cena de Walt observando o filho através do vidro já é histórica: resume o mar de sentimentos que o poder causa naqueles que, por uma vaidade ou outra, se perdem nos próprios conceitos.

Lágrimas podem surgir por diversos motivos: por entender o personagem, por ter pena dele, pelo fim da série, pela qualidade da série.

No meu modo de enxergar a vida, uma coisa é certa: na arte, a entrega e a intensidade sempre valerão minhas lágrimas. O término de BB vale lágrimas, histeria, tatuagens, reflexões; vale tudo que uma obra-prima merecer enquanto for lembrada por filhos, netos e bisnetos dos primeiros espectadores.

Breaking Bad fica para a posteridade. O Rei está morto, vida longa ao Rei.

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