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Cada pessoa é um mundo

Sempre que estou parada de um lado da faixa de segurança, esperando para atravessar, reparo copiosamente em que está do outro lado louco para chegar onde estou. Vício mesmo. Pareço até um pouco psicopata. Será que a menina que está no celular está apaixonada? Ela sorriu. Acho que sim. A senhora carrega a vaidade junto com as sacolas: suas unhas vermelhas estão mais bem feitas que as minhas. O pai dizendo para a filha que só pode atravessar quando o sinal estiver verde olha torto quando um garoto passa correndo entre os carros. Quão difícil é educar alguém? Como se equilibram solidão e orgulho de um pai que viu seu filho atravessar a rua pela primeira vez da janela de casa?

E eu aqui com o dedinho do pé doendo, reclamando de coisas que não posso mudar e estagnada em outras que já deveriam ter evoluído. Será que prefiro comparar o meu calo ao ódio do pai pelo garoto que se intrometeu na sua lição ou às unhas vermelhas da senhora impecável? Será que eles têm alguma inclinação política? Nutrem preconceitos? Qual música emociona? Frequentam alguma religião? O que me ensinariam sobre o amor?

Cada pessoa é um mundo. E sempre que eu estou lá, parada na faixa de pedestres esperando para ir ao outro lado, me dou conta disso. Sabemos tão pouco sobre os que amamos, menos ainda sobre os que quase não conhecemos e ainda tem outras quase 7 bilhões de pessoas por aí. Todas diferentes, mesmo que o DNA se assemelhe. Absolutamente imprevisíveis, mesmo que leiam as mesmas notícias no jornal pela manhã.

Do outro lado da rua pode estar alguém que te compreenda como ninguém ou alguém que te tenha o seu vício em sofrer como loucura. Você está preocupado com as contas pra pagar e quem acabou de passar ali pode estar pensando em abrir mão de um salário para ser mais feliz. Enquanto você opta por passar um dia sem comer carne vermelha, as mãos do outro podem ser as que olhem as verduras orgânicas que chegam à sua casa. Não tem como saber, resumir, prever.

É por isso que não existe régua no mundo capaz de julgar se uma dor é maior do que a outra, se alguém tem mais motivos que outrem para ser feliz ou triste. Porque cada pessoa é um mundo com as suas próprias métricas, experiências e saberes. Por isso também é tão bom conhecer pessoas diferentes: visitando o mundo do outro, o nosso olhar ganha mais um passo em direção a olhar tudo de outra maneira. 

O sinal abriu. A senhora sorriu quando a garota exclamou “agora pode, pai, ficou verde!”, trocamos um olhar cúmplice enquanto esbarrei na menina que não largava o celular. Cheguei do outro lado me sentindo só uma, mas com a maravilhosa sensação de que de mim existe uma só.

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