Esta foto é sua?

Cansei de ser uma versão resumida de mim mesmo

Ontem à noite, antes de dormir, cheguei a uma conclusão absurdamente necessária para curar essa angústia que me assombrava os dias – eu nunca me encaixei em lugar algum. Revendo a minha história, percebi que sempre fui uma versão resumida de mim mesmo, porque todos os ambientes, ciclos e rodinhas de conversas ou amigos, trabalhos, situações, não conseguiam me caber por inteiro.

Sempre fui aquela foto que o Instagram não permitia ser compartilhada por inteira e precisava ser cortada. Faltava sempre os pés ou a cabeça, ou um pedaço da paisagem que achava bonita. Eu nunca conseguia me mostrar por completo, para que todos pudessem parar e entender, de fato, quem e como era este que vos fala.

Para dar só mais um exemplo de como eu sempre fui uma síntese de toda a minha capacidade de ser, imagine o trailer de um longa-metragem. Sabe aquele pedacinho curtinho, de três ou quatro minutos, que precisa ter a cara de pau suficiente para dar conta de duas horas de filme? Então. Eu engolia o zero do meu 80, porque as pessoas não conseguiriam entender meus dois dígitos e só poderiam me aceitar se eu fosse 8.

Ontem à noite, antes de dormir, resolvi chutar o balde. Resolvi que estava desgastante demais ser tão pouco. Se eu, por qualquer motivo que ainda desconheço, nasci tão exagerado em sentimentos, ações, sonhos e pensamentos, por que deveria então me menosprezar para agradar dois, três ou um mundo inteiro?

Chega uma fase da sua vida, meu amigo, que você precisa dar um basta nessa necessidade de fazer parte, de caber nos ambientes, ciclos e rodinhas de conversas ou amigos, trabalhos, situações. Um sapato apertado machuca o pé e, por mais que ele seja extremamente bonito, que combine tão bem com a roupa, sempre – digo isso com toda convicção do mundo – sempre é melhor estar extremamente malvestido aos olhos dos outros a estar desconfortável.

Ontem à noite, depois que o meu corpo inteiro lutava para se moldar a realidades menores do que as expectativas, resolvi que escolho o conforto. Eu escolho estar com os dedos dos meus pés confortavelmente acomodados num sapato que pode ser feito, brega, que pode não combinar com o restante da roupa, da ocasião, mas que me faz feliz.

Hoje, acordei um tanto quanto mais eu. Estou longe ainda de caber em tudo, de pertencer à realidade que estou inserido, mas pelo menos estou sendo honesto comigo mesmo. Quem não tem paciência para me ver como um filme inteiro, não merece sequer ver meu trailer. Não sou uma sinopse, lide com isso.

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