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Cuidado, a vida é um bumerangue!

Eu tinha uns 15 ou 16 anos quando rolou um concurso cultural lá na escola. A ideia era escrever uma redação para a feira de ciências com o tema sustentabilidade. As melhores redações ficariam expostas em banners, seriam lidas no auditório, receberiam aplausos dos pais, elogios dos professores e toda aquela babação de ovo que sempre deveria rolar quando você manda bem em alguma coisa na vida.

Pois bem. Eu curti a ideia.

Sempre fui meio caretona de uns afagos no ego e eu sabia que tinha chances de mandar bem nisso. Escrever sempre foi o negócio em que eu sabia que mandava bem na vida. Passei a infância e a adolescência inteiras tentando tocar piano, dançar ballet, lutar judô, nadar borboleta, fazer ponto cruz e aula de pintura mas a real é que escrever sempre foi minha única aptidão genuína e aquela era uma baita chance de autoafirmação (vocês sabem que de vez em quando a gente precisa disso. Não vou me fazer de rogada dizendo que não.)

O grande problema era: eu não entendia nada de sustentabilidade. Eu não sabia lhufas além dos clichês que eu lia nos editoriais da Folha no pré-vestibular. Eu conhecia um monte de palavras bonitas e conjunções rebuscadas mas a realidade é que eu não tinha proposição nenhuma para a minha redação. Eu não entendia de ecologia, não separava o lixo, não conhecia o significado de ecofriendly e minha única ideia era falar falar sem dizer nada porque senão minha vitória ia melar.

Decidi apelar. Comecei pelo título e escrevi “Bumerangue”. Passei os cinco parágrafos descrevendo o brinquedo que a gente lança e volta na nossa direção e numa analogia que eu sempre achei meio meia-boca eu dizia que o mundo era assim também: a gente brinca com ele e o resultado volta para a gente. Eu dizia que não tem muito jeito. Que é até meio físico. O que a gente lança recebe de volta e por isso não dá pra passar a vida inteira fazendo do mundo um grande depósito de lixo e bosta.

No fim a redação até que ficou bem da hora. Ganhei o concurso, afaguei o meu ego, recebi vários aplausos e hoje achei no meio da bagunça o livrinho em que estranhamente essa redação foi publicada.

Li, reli e fiquei pensando naquela minha analogia juvenil embebida em toda a ideologia cristã que eu consumia na época. Pensei naquilo, pensei nos dez anos que se passaram desde então, pensei que eu continuo falando falando sem dizer nada mas que de vez em quando eu até que acerto, né não?

A real é que eu entendo da vida tanto quanto entendia de sustentabilidade mas às vezes percebo que a gente é meio bunda-mole com as pessoas. Às vezes a gente é meio egoísta. Às vezes a gente é meio displicente. Às vezes a gente faz um monte de merda mas hora ou outra precisa sair da teoria do bom-mocismo good vibes e colocar em prática toda essa honestidade que soa bonito em frase de efeito.

Às vezes a gente precisa parar de ser babaca com o mundo e com as pessoas. Às vezes a gente precisa fazer umas gentilezas. Às vezes a gente precisa parar de sacanear aquela mina, invejar os amigos e passar a perna no coleguinha de baia. Mais cedo ou mais tarde a gente percebe que a vida é realmente uma brincadeira bem gostosa mas que o mundo é de fato um grande bumerangue, cara.

Cuidado pra ele não voltar na testa, na culpa, na consciência e nem nas costas. Dói pra caramba, de vez em quando a gente até que esquece mas a real é que dificilmente; muito dificilmente machucado de bumerangue sara.

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