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Desencanar é quase tão gostoso quanto se apaixonar

Quem me lê de vez em quando sabe o quanto eu gosto de me apaixonar. Sempre fui extremamente entregue aos meus sentimentos e já escrevi algumas vezes (como aqui, por exemplo) sobre a preguiça que eu tenho desse lengalenga de desapegar. A verdade é que eu gosto muito do sentimento de entrega ao outro e mesmo depois de quebrar a cara um bom bocado de vezes, eu sigo sem medo algum persistindo na ideia de permitir que o outro tenha a chance de me encantar. Eu sigo gostando de me apegar.

Talvez eu seja romântica demais, é verdade, mas de vez em quando é preciso dar o braço a torcer e talvez já seja hora de eu admitir que sobre algumas coisas a turma do desapego até que tem razão. Talvez já seja hora eu admitir que a vida não é só paixão. Talvez já seja hora de eu admitir que desencanar também é muito, muito bom.

Digo isso porque recentemente eu cometi o erro de estar a fim de um cara que não me não me dava muita atenção (sim, eu também!), e semana passada, num inevitável encontro com ele, eu tive o grande prazer de olhar na cara do cidadão e perceber que o sentimento simplesmente sumiu e a presença dele já não me causa nem aquela vontade de passar um pozinho na cara e arrumar o cabelo por precaução. Que delícia de sentimento. Que libertação.

A verdade, devo admitir, é que paixão nem sempre é um sentimento bom. Não é raro que a paixão erre a mira e chegue a quem não merece nossa afeição. Não é raro que a paixão cause certa miopia e enxergue beleza em quem não tem; bondade onde não existe e carinho em quem não nos dedica nem atenção. Não é raro que a paixão cause certa cegueira e nos faça dedicar energia a quem não merecia nem os cumprimentos da nossa boa educação.

Paixão pode e deve ser uma delícia, mas para isso é essencial que ela venha com algumas pitadas de razão. É essencial que ela seja correspondida. É essencial que ela encontre qualidades de verdade que mereçam nossa dedicação. Paixão-cegueira só serve para ensinar um bom bocado de lições e a maior delas é que desencanar também é bom. Desencanar é uma libertação quase tão gostosa quanto uma nova paixão.

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