Esta foto é sua?

Dia Internacional da Mulher – e o que temos para comemorar?

Não trago novidades: hoje é o Dia Internacional da Mulher. Dia em que a publicidade e o mercado empurram um monte de produtos pra gente, sob o pretexto de ficarmos mais bonitas e cheirosas – afinal, de que vale uma mulher se não for para servir de bibelô, não é mesmo? Dia em que todo mundo lembra da greve e da incineração de mulheres na fábrica em Nova Iorque em 1911 – mas que a maioria continua chamando grevista e mulher de vagabundo. Dia em que a gente ganha flores, esmaltes, chocolates e parabéns – na maior parte das vezes, de mãos que nos estapeiam e de bocas que nos silenciam.

A cada mulher cabe usar o dia de hoje como bem entender. Se você se sentir feliz por ser lembrada, ótimo. Se se sentir agraciada pelo creminho de mãos, bacana. Se quiser aderir à greve feminina que está sendo planejada em diversos países, maravilhoso. Eu sempre gosto de usar esse dia para lembrar de todas as vezes em que eu fui violada ou subjugada simplesmente por ser mulher.

A começar pelo dia em que – eu devia ter uns cinco anos – acharam a maior graça em me mostrar pelada pra toda a minha família porque eu tinha uma bundinha redondinha e eu, desesperada, me escondi atrás da porta do banheiro. Continuando pelo dia em que – eu devia ter uns onze anos – atendi à ligação telefônica de um suposto entrevistador do IBGE que, ao notar a minha voz de menina, começou a me perguntar, de maneira bem sugestiva, sobre as minhas características físicas e o grau de desenvolvimento do meu corpo. Seguido pelo dia em que – eu devia ter uns 14 – um cara chegou enfiando a mão na minha boceta no meio de uma matinê. Também teve o dia em que – eu devia ter uns 18 – o chefe de um dos primeiros lugares onde eu estagiei berrou comigo e me humilhou na frente de todo o escritório simplesmente porque discordou de um texto que eu fiz. E o dia em que – eu devia ter uns 19 – um policial civil fez a brincadeira do “chupa que é de uva” para os amigos machos dele, porque eu estava usando um vestido roxo. E o dia em que – eu devia ter uns 21 – escrevi meu primeiro texto sobre sexo para a internet e fui hostilizada e xingada de vagabunda para baixo. E o dia em que – eu devia ter uns 22 – dois homens mexeram comigo numa rua escura e deserta e, no que eu respondi grosseiramente, começaram a rir com deboche da minha cara e me ameaçar. E o dia em que – eu devia ter uns 23 – eu estava em um karaokê na Cidade do Cabo, África do Sul, e um nativo achou que seria bacana enfiar a língua à força na boca da “brazilian hottie”, enquanto todo mundo assistia e ninguém fazia nada. E o dia em que – eu devia ter uns 24 – um senhor mexeu comigo no terminal Jabaquara e, no que eu pedi mais respeito, ele começou a me seguir, e eu só consegui escapar porque me escondi no banheiro feminino. E o dia em que – eu devia ter uns 26 – um bêbado na rua atirou uma garrafa e um copo de vidro na minha direção e me chamou incansavelmente de “vadia” e “vagabunda”, só porque eu estava vestindo uma roupa de academia.

Hoje, eu tenho 27. Esse coro continua ressonando na minha cabeça – vadia e vagabunda, vadia e vagabunda, vadia e vagabunda. Essas histórias continuam se repetindo – o “ô, delícia” quando eu passo em frente a um aglomerado de machos, o mansplaining numa roda de amigos ou numa reunião de trabalho, o olhar desejoso quando eu espero para atravessar a rua, como se eu fosse um pedaço de carne numa vitrine de açougue. E os homens continuam nos desrespeitando de todas as maneiras possíveis e imagináveis – silenciamento, agressão verbal, agressão física, violação, humilhação, difamação e mais um monte de “ão” que poderia ocupar uma página de Word inteira.

Dói, mas é assim que eu gosto de comemorar o meu Dia Internacional da Mulher. Porque é me agarrando à dor que eu encontro motivos para não desistir. Para retomar o meu lugar de fala quando me interrompem. Para não me calar diante dos assédios diários que a gente sofre na rua. Para bancar a minha saia curta, mesmo quando 58,5% da população brasileira acha que o comportamento feminino justifica o estupro. Para estudar, trabalhar, limpar a casa e cozinhar num período ínfimo de 24 horas. Para manter o cabelo brilhoso, a sobrancelha feita e o corpo bonito – a pressão social pela estética feminina é tamanha que eu prefiro ceder a resistir. Para expressar a minha sexualidade, mesmo sob a pena de ser publicamente chamada de vadia e vagabunda, vadia e vagabunda, vadia e vagabunda. Para continuar lutando.

Não é fácil, nunca foi e nunca será. Pra gente que é mulher, a moleza tá só na nossa flacidez.

Comentários