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E a música parou de tocar

Sentir falta é uma traição ao tempo. Você está andando, sem preocupação nenhuma e de repente, passa alguém do seu lado cantando aquela música. Logo aquela que você não ouvia a tanto tempo por medo das lembranças. Pronto. Em uma fração de segundos você volta no tempo. Trai o presente com o passado e se entrega. E dói. Enquanto a letra da música ecoa, sua memória resgata toda uma história.

Mas não é qualquer história. É a sua. É a dele. A de um “nós” que desatou tão repentinamente que nem deu tempo de unir de novo os laços. Cada um para um lado. Assim. Abrupto e rápido. E a música não para de tocar.

Sentir falta é uma condição da razão. Eu sei, você pensa que o coração é responsável por abrir a porta que dá para as lembranças, mas eu lhe digo que não. Sentir falta é a pena que a razão impõe ao coração por desobediência. Tantas vezes ela lhe disse: Não. Não. Não. E seu coração teimoso, talvez tanto quanto o meu, respondeu: Sim. Sim. Sim. E arriscou. E amou. E foi amado. E partiu. Aliás, partiram e um pedaço seu foi junto.

Mas não foi qualquer pedaço. Foi um grande. Foi um seu. Um pedaço que você entregaria sem pensar duas vezes, mas que foi tomado. Assim. No susto e silêncio. E a música não para de tocar.

Sentir falta é o que restou do amor. Você sabe. Você queria estar lá. Queria ainda ter as mãos para segurar, queria ouvir aquela risada que mais parecia um prenúncio de felicidade. Eu sei e você sabe que queria ainda ser o reflexo daqueles olhos, o bom dia de um domingo e o boa noite do domingo também. Mas só restou saudade. E a música não para de tocar.

Eu acredito que ninguém se sente como você se sente agora. Que dia para alguém passar ouvindo aquela música, não? Eu sinto muito. Mas, sabe de uma coisa? Falta sentir. E você sente tanto. Então sinta. Sinta amor, raiva, dor, felicidade, sinta falta, mas sinta. Sinta até quando aguentar e um pouco mais. A gente sempre vai um pouco mais longe do que pensa ser capaz.

Sentir falta é uma visita da saudade. É passagem, não morada. É passado, às vezes presente, mas não cabe no futuro.

E a música parou de tocar.

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