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“Ela é demais” e o que aconteceu com os garotos mais populares do colégio

Tudo acontece em uma daquelas típicas escolas norte-americanas dos anos 90. Temos aqueles tipos obrigatórios, como o garoto mais popular do colégio, Zach, interpretado por Freddie Prinze Jr – o eterno galã das comédias românticas americanas. Ele namora Taylor, a patricinha esnobe e badalada que o dispensa para ficar com um ator de televisão. É época de formatura e Zack é o favorito para ser eleito como rei do baile. Por vaidade, acaba apostando com um amigo que qualquer garota que ele escolha namorar, naturalmente ganhará o posto de rainha do baile. O alvo escolhido na aposta é Laney (Rachael Leigh Cook) a menina esquisita, nerd e retraída. Zack tem o prazo de seis semanas para seduzi-la e transformá-la em uma beldade, tão linda quanto popular. O resto não precisa nem adivinhar. Ele se apaixona. Ela se transforma. E daí a aposta é revelada a ela.

Veja o trailer:

Confesso que minha adolescência foi marcada por filmes assim, românticos e aparentemente inofensivos, mas que reproduziam pequenas normas que validavam o narcisismo dos garotos mais populares e ao mesmo tempo colaborava com diversos complexos em relação às meninas menos vaidosas ou padronizadas, como se a adequação feminina fosse um caminho quase que obrigatório para que os príncipes as aceitassem.

Sobre o narcisismo, li esses dias algo interessante escrito por Fabrício Carpinejar:

“O tipo narcisista se coloca na posição de provedor da verdade. É afetado, unilateral e autoritário – tornou-se assim pela beleza, pelo dinheiro ou pela projeção social. A questão é que se enxerga perfeito e intocável e confunde sua presença amorosa com filantropia.”
“É tão centralizador que usa a dor para aumentar seu poder e castigará qualquer um que renunciou o prazer de seu reflexo. O narcisista é vingativo por perceber o amor como uma monarquia. Sem ele, o outro não é nada, não tem história, não tem passado, não tem futuro. Distanciado de seu domínio, perde o direito à coroa e converte-se, de novo, em reles súdito.”

Fiquei pensando nos “garotos mais populares” que existiram nas escolas por onde passei. Lembrei-me do quanto para eles era importante seduzir a todos, de todas as formas. Seduziam as meninas: buscavam a quantidade, montavam rankings, elegiam as mais belas, ostentavam troféus. Seduziam os meninos, queriam “clientes” que os invejassem, para que esses o seguissem como modelo ideal a ser alcançado. Para isso, o garoto popular se esforçava para ser não só o mais belo, mas o mais zueiro, o melhor nos esportes, o líder da sala.

popular

Não vou mentir, por muito tempo fui obcecado por essas pessoas, tentava entender o motivo delas (agora falando de homens e mulheres) exercerem tanto fascínio social. Tentava entrar em suas mentes e ser amigo delas, para achar um ponto fraco através de suposições que desconstruíssem aquela imponência superficial. Percebia que elas também se cobravam e tinham medos. Eram acostumadas a serem unânimes, mas também morriam de medo de que alguém cortasse a corrente e não as elogiasse, temiam serem vistas como impostoras ou que algum corajoso ousasse passar reto pela vitrine. O elogio tornava-se tão mecânico que a única coisa que as tirava do tédio era justamente a indiferença. Já o esquecido era um franco-atirador, não tinha nada a perder, um elogio genuíno para ele era o oposto de uma cantada trivial feita ao unânime, talvez uma festa-surpresa. Nesse jogo de destaques, os esquecidos iam encontrando formas de serem notados socialmente, muitas vezes pela intelectualidade.

Passaram-se muitos anos depois desse filme e depois da aurora escolar. Fui descobrindo que o mundo podia ser rodeado de pontos de vista, tudo dependia do seu ponto de referência. Nunca fui o esquecido, mas jamais fui o unânime, fui o que existia no meio disso. Fui entendendo o perigo de sustentar o ego de quem ostenta a unanimidade estética. Entre você e a unanimidade sempre haverá um espelho interrompendo a ligação. Revendo esse filme para escrever esse texto, me lembrei de todas as felizes às vezes em que não me preocupei com nada disso, nem com reis nem com rainhas. É que enquanto isso eu estava lá na pista, dançando sem pensar na nobreza, apenas dançava, pronto para alguma surpresa, sem utopias, sem sinopses. E gostava de mim assim, exatamente assim, fora do camarote. Eu gostava de mim e ponto.

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