Frederico Elboni por Frederico Elboni

Ela é tão padrãozinho…

Ela é tão padrãozinho, disseram as pequenas, e pouquíssimas, almas reducionistas que me rodeavam. Não sei, mas por algum motivo, que finjo ignorância para não criar julgamentos de súbito, a colocaram numa caixinha que pouco faz parte dela. Ah, se eles soubessem da magia que há que por trás daqueles olhos atentos. Ah, se eles soubessem da liberdade que ela carrega na alma. Ah, se eles soubessem como ela tem consigo um caminhão de virtudes silenciosas. Ah, se eles soubessem da maturidade das nossas conversas durante a madrugada, enquanto andamos pelados pela casa, procurando coisas para comer na geladeira. Ah, se eles soubessem quem de fato ela é…

Mulher do beijo doce e com notas de um passado amargo, que revira os olhos ao receber carinho nas mãos, que gosta de sexo na intensidade que gosta de doces, que pincela os dedos, lindos e longos, nos meus cabelos antes de dormir, que inspira as minhas amigas páginas e me arromba a retina quando a vejo sair pela porta de casa ao meu encontro. Para ela eu não economizo palavras, até porque, convenhamos, não seria justo com a nossa entrega. Dos sofrimentos dela eu busco achar soluções nas minhas noites de segunda-feira, dos seus medos, rodopio, e vejo se eles se escondem no dicionário das minhas vivências. Do seu sorriso, cheio de timidez e safadeza, eu tenho saudade sempre que distante, de sentimentos bons a gente se mune todos os dias, contamos as mesmas histórias que vivemos juntos um ao outro, sempre com intuito de nos lembrarmos o quão felizes somos em momentos que antes para nós eram tão frívolos.

Já namorei mulheres que fizeram cursos de longa duração, mestrado, doutorado e viagens que pouco cabiam nas páginas carimbadas do passaporte. Mas ela fez um curso que pouco havia ouvido falar, principalmente visto tão de perto. Um curso que necessita de estudo, paciência, dedicação, mas, diferente dos outros cursos, carrega em si um amor diferente nas mãos e no coração. Ela é mãe! De duas lindas meninas. Não é lindo ler isto? Eu já me alegro por inteiro! Meus colegas, com um tom de loucura, e achando que essas perguntas seriam uma grande descoberta ao meu ser, me questionaram o porquê da escolha? Como se fosse algo corajoso fugir dos sentimentos sinceros e dar voz ao egoísmo. Como se a paixão não precisasse de um caldeirão cheio de coragem. Como se a matemática do gostar não suprisse a multiplicação diária dos medos. Nem sempre amar é fácil, na verdade, quase nunca. Os vendo comentar coisas que para mim são detalhes no sentir, fiquei triste, não pelos comentários maldosos ou incompreensivos, mas, pois, percebi que eles entendem tão pouco de amor… a sensibilidade que precisamos para saber ouvir o coração, sem o pesar do medo e das diferenças, é algo que só o tempo e a espiritualidade nos trazem. Quando a gente se entrega aos sentimentos com verdade, coloca as diferenças no bolso de trás da calça e sai rindo por aí, feliz, pois encontrou um amor para si!

A maternidade a fez aflorar um amor que hoje ilumina quem está por perto. De longe, sentado na varanda da sua casa, inquieto, mexendo as minhas pernas sem parar, a vejo colocando os sapatos nas meninas, penteando as franjas que são insistentes turistas àqueles olhos que ainda estão descobrindo o mundo, as arrumando, lindas e serelepes, para irem a aula, todo dia um novo aprendizado e uma sensação de descoberta única. A maternidade traz qualidades únicas a mulher, potencializa o poder de amar e dividir, traz a maturidade que nenhuma viagem ao exterior pode trazer… ter filhos é sempre um doutorado no quesito amar.

Se encontrar em alguém que tem consigo lindas histórias de alegria e sofrimento, é outro nível de gostar e doação. Com a idade a vida perde o confete, a perfeição, os olhos azuis e faz a gente amar, se encontrar, nas tristezas e dúvidas alheias. Fazer cálculos, se medir e criar padrões para amar, é tão raso, tão pouco sábio. Imaginar, fisicamente, um amor é um injusto atropelar dos sinais que um amor distribui. Eu não meço a minha entrega, nem me pergunto até aonde as coisas vão; perder o presente tentando nos encaixar no futuro é uma pergunta que cria dúvidas desnecessárias. E se eu tenho medo? Claro, morro de medo todos os dias, mas nunca daria ouvidos a eles com tal confiança, até porque eles não transam comigo de ladinho, muito menos me fazem cafuné para dormir.

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