Essa história poderia ser sua Esta foto é sua?

Essa história poderia ser sua

João nasceu franzino. Não seria forte que nem o pai, era notório. Desde bebê levava nas costas uma tonelada de expectativas alheias: “Esse menino vai ser macho que nem o pai.” Lá pelos cinco anos, João preferia brincar de casinha. Roubava os sapatos e a maquiagem da mãe. Ele não entendia quando era repreendido. Ele não sabia que deveria gostar de brincar de carrinho porque era um menino.

Já homenzinho, andava num grupo de meninas. Preferia artes a esportes: João gostava de dançar. Quando foi começando a construir a própria identidade, se vestia de um jeito que os parentes julgavam estranho. Gostava de chapéus, cachecóis e estampas divertidas.

A tia Lucinda repetia a mesma ladainha em todo almoço de domingo: “Esse menino é afeminado.” O pai, envergonhado, não comentava quando o garoto não o acompanhava no futebol. A mãe fingia que não via. Vivia mentindo pra si mesma: “João chegou tarde ontem, querido. Deve estar de namoradinha.” A avó, daquela gente conservadora e intuitiva, evitada João. ”Preferia ter um neto ladrão que homossexual.”  Homossexual, não: “VIADO”, ela sempre corrigia. O primo macho alfa, que praticava musculação sete vezes por semana e arrotava na mesa do almoço, também se envergonhava de ter o mesmo sangue que João.

Aos vinte anos João foi expulso de casa. Não com palavras – se bem que poderia. Ele foi expulso pelo desgosto do pai, pela indiferença da mãe, pela hostilidade da avó e pelo desdém do primo machão. Ele foi expulso pelos olhares da Tia Lucinda, que sempre diziam “eu não disse que esse menino era afeminado?”

João teve a sorte de um amor tranquilo. Conheceu um moço bom na universidade – mas para a família de João não importava se era um moço bom. Importava, apenas, que era um moço – e eles só queriam que fosse uma moça, ainda que ruim. João seguiu em frente. Ele e o seu moço usavam aliança, dormiam juntos e dividiam as contas, como a maioria dos casais heterossexuais. Mas para os vizinhos, as famílias e pro pessoal da faculdade, eles não eram um casal como outro qualquer. João não pôde levar o moço bom pra conhecer seus pais. Nem seus amigos mais conservadores. Ele não pode ter uma certidão de casamento, também – embora o que importe, verdadeiramente, seja o dia-a-dia feliz que João vivia com seu moço bom.

Depois de uma vida de tanto sofrimento e privações, João tem que ouvir todos os dias que a homofobia é frescura. Que todo homossexual é lascivo. Tem que se calar quando dizem: “Eu não tenho preconceito, só não quero conviver com homossexuais porque não concordo.” Depois de tudo isso, João ainda tem que se conformar com uma votação que decidirá se ele pode ou não ter uma família. Uma votação que decidirá se ele poderá amar em paz.

João é culpado todos os dias pela sua condição: “Não se nasce homossexual, isso é má criação.” João ainda tem que conviver com as marchas da família e com as brincadeiras de mau-gosto quanto à sua sexualidade. Ele tem de engolir a seco expressões como “orgulho hétero”. João, provavelmente, nunca terá uma criança em sua companhia, mesmo que suas intenções sejam as melhores.

João não precisa de mais preconceito e de mais hostilidade. Ele não precisa de piedade ou de falsa aceitação. João não precisa de homofobia mascarada. Ele só precisa ser aceito – não tolerado, mas verdadeiramente aceito. Ele só precisa de alguém que entenda que homofobia é muito mais do que não bater em homossexuais e não falar “homossexualismo”. Isso é tolerar. Isso é o mínimo.

Ele precisa de amigos e de afeto. Dos mesmos abraços que os heterossexuais, dos mesmos olhares, das mesmas vivências e dos mesmos problemas – não maiores e não menores, os mesmos. João só precisa ser visto sob a ótica da única condição que realmente interessa: A condição humana. João poderia ser você.

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