Eu queria um futuro, ela queria o presente Esta foto é sua?

Eu queria um futuro, ela queria o presente

Dentre mortos e feridos, salvaram-se todos. No meio do turbilhão que foi o período compreendido entre nos conhecermos e o dia da fatídica briga onde paramos de nos falar – neste período aprendi muito com ela. E talvez a mais difícil de aprender e aplicar na minha vida tenha sido a irritante e inspiradora mania que ela tem de tentar ver o lado bom de coisas que talvez não tenham sido tão boas. Ela tem três tatuagens no corpo – uma feita após o término de cada um dos três relacionamentos que ela teve. Admito que é uma ideia que, até pouco tempo atrás, me era absurdamente estranha. Mas hoje faz sentido. Para alguém como eu, que não se furta a se entregar a paixões mas também não se furta a sofrer por elas, sequer pensar em algo assim seria impossível.

Mas eu comecei a tentar pensar assim. E é por isso que hoje, apesar de tudo, eu assumo, sem nenhum remorso ou vergonha: Ela me faz falta. Foi pouco tempo, mas a falta é muita. E é uma falta presente, que se manifesta o tempo todo, em todos os lugares, que pula para me assombrar escondida detrás de qualquer pensamento ingênuo e aparentemente inócuo. Logo eu, um romântico dramático que pensa como o Vinicius de Moraes, que, ao indagado pelo amigo Tom Jobim, que, depois de nove casamentos, quantas vezes ele ainda pretendia se casar, respondeu: “Quantas vezes for preciso”. Eu me apaixonarei quantas vezes for preciso. Mas eu, assim como o poetinha, sofro. Pois, o parafraseando novamente, sei que “todo grande amor só é bem grande se for triste.”. Logo eu, que guarda até hoje luto de relacionamentos findos há dez, doze anos, logo eu, tentando ver o lado bom de algo que se findou. Logo eu.

Mas eu vejo. Vejo que ela me faz falta. Me faz falta o futuro que poderíamos ter tido, diferente de todos os futuros que eu já tive e de todos os futuros que eu viria a ter. Me faz falta o presente que vivemos, mesmo quando eu já estava no nosso futuro, e ela, no passado. Eu queria um futuro, ela queria o presente. Mas o presente não era suficiente para mim, e o futuro era um lugar distante demais para que ela sequer se preocupasse com isso. Me faz falta a confusão que ela causava na minha cabeça sendo sexual quando eu era fofo, e sendo fofa quando eu era sexual. Me faz falta ver, em seus olhos, o exato oposto do que ela me dizia. Me faz falta ela se aninhando no meu peito cinco minutos depois de dizer que estávamos “casalzinho demais”. Me faz falta a extrema felicidade dela, felicidade essa que não só nunca experimentei como nem consigo imaginar como é. Me faz falta a diferença entre nossos pontos de vista sobre o amor: o dela, racional, sempre mantendo o amor próprio, respeitando a individualidade. O meu, uma ventania que entra pela janela e derruba tudo, que ama o ser amado mais que a si mesmo, irracional, burro, raivoso, que sofre, mas que prefere sofrer que não amar.

Me faz falta, ela, musa alegre, otimista e leve, ter se interessado por mim, o prosador com alma de poeta romântico, que perde mais tempo construindo mundos imaginários e idealizando pessoas do que vivendo no mundo real com as pessoas de verdade. Me faz falta, inclusive, ela tentar me tirar da minha caverna. Me faz falta o simples fato de ela ter se proposto a entrar na minha caverna, correndo o risco de, como realmente aconteceu, ser vítima de um dos perigos escondidos nas trevas das pedras do fundo da caverna. E ela foi vítima. Algumas vezes. Me faz falta a calma desinteressada com que ela me perdoou depois de eu ter cometido verdadeiras atrocidades. Eu cometeria uma injustiça aqui se não citasse que muitas mulheres já perdoaram minhas atrocidades. Mas nunca em tão pouco tempo.

Me faz muita falta o eu que eu era com ela, o ela que ela era com comigo, e me faz muita falta o nós que nós éramos juntos. Me faz falta o olhar misto de espanto e alívio que ela me lançava a cada vez que se lembrava que tinha encontrado alguém que, em uma escala muito maior e, arrisco dizer, pior, refletia a própria personalidade dela. Não me faz nenhuma falta vê-la perceber, aos poucos, o quão difícil é conviver com alguém assim. Mas me faz muita falta o esforço que ela fazia para tentar me ajudar. Me faz falta demais vê-la chegando na minha casa para assistir um simples filme ou me ajudar a arrumar a casa, e somente vê-la indo embora dois dias depois. Me faz falta receber dela um convite para um sorvete, almoço ou cinema, algumas horas depois de ouvi-la reclamar que estávamos juntos demais.

Me faz falta, pasmem, a confusão que me causava tentar adivinhar o que ela pensava e sentia, e o turbilhão que era dentro de mim tentar perceber nela, mesmo com negativas verbais contrárias, fagulhas de paixão. Me faz uma falta danada o olhar dela me procurando no meio de dez mil pessoas em um ensaio de escola de samba. Me faz falta a admiração sincera que ela tinha por mim, e o interesse com o qual ela me ouvia dissertar durante horas sobre qualquer assunto idiota. Ouvi-la dizer que, mesmo estando brigada comigo, chorou muito ao receber as minhas flores, é uma coisa da qual eu sinto muita falta. Mas o que mais me faz falta é ouvi-la dizer, depois de uma semana sem me ver, que sentiu saudades de mim e que sentiu a minha falta, quando eu não tinha a menor ideia de que faria falta. E essa parte final me faz falta principalmente porque isso não vai mais acontecer.

PS: Deixo aqui duas poesias do Poetinha que fazem todo sentido.

“(…)

Louco amor meu, que quando toca, fere
E quando fere vibra, mas prefere
Ferir a fenecer – e vive a esmo

Fiel à sua lei de cada instante
Desassombrado, doido, delirante
Numa paixão de tudo e de si mesmo.”

(Vinicius de Moraes, Soneto do Amor Maior)

**

Tomara

Que você volte depressa
Que você não se despeça
Nunca mais do meu carinho
E chore, se arrependa
E pense muito
Que é melhor se sofrer junto
Que viver feliz sozinho

Tomara

Que a tristeza te convença
Que a saudade não compensa
E que a ausência não dá paz
E o verdadeiro amor de quem se ama
Tece a mesma antiga trama
Que não se desfaz

E a coisa mais divina
Que há no mundo
É viver cada segundo
Como nunca mais…

(Vinicius de Moraes, Tomara)

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