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Felicidade é coisa pouca. O que eu quero ainda nem tem nome.

Acordo de um sobressalto. Como se eu tivesse sonhado que caí num buraco. Ou de uma escada. Não sinto a dor da queda. Só sinto que meus pés espasmam e tocam o vazio. A cama acabou, pelo menos a sul. Estico os braços de modo a tatear o que há além de mim. À esquerda, abismo. À direita, território. Vazio. Vadio. Vasto. Há uma vastidão de colchão e de lençóis.

E só.

Não há corpo em minha cama que não o meu. E olha que caberia. Na cama, no pensamento, no coração. Caberiam todos os seus centímetros, todos os seus quilos, todos os seus fios de cabelo. Suas roupas no meu guarda-roupa, seus perfumes na minha cômoda, seus delírios no meu orçamento. Mas, de certa forma, a gente preferiu ser sozinho. A gente quis assim.

A gente quis abrir mão da pipoca aos domingos à noite, do bom dia preguiçoso às segundas de manhã, dos banhos de lua às terças de madrugada. Das taças de vinho indevidas às quartas à noite, dos vinis de rock no café da manhã das quintas, da exaltação dos nossos ânimos nas madrugadas de sexta. Da preguiça macunaímica nas tardes de sábado.

E no começo, eu até achei que eu fosse triste. Que abrir mão de tudo isso era também abrir mão de rir, de brincar, de brindar. De efundir, de fundir, de foder. Por mais que a gente ache que tenha tomado a decisão certa, pra essas coisas, não há prova dos nove, não há gabarito. Não há corretor automático. Até mais não vira ame mais, adeus não vira há deus.

Hoje eu vejo que não foi triste. Nem feliz. Apenas foi. Suficiente, sincero, necessário. Andar no parque sozinha, hoje, é um ato de amor. Dançar na balada sozinha, hoje, é um ato de desprendimento. Viajar sozinha, hoje, sou eu fazendo um convite a mim mesma para banhos de mar, sessões de fotografia, passeios de bicicleta, novas experiências gastronômicas, tardes de chá com bolinhos de chuva. O casal feliz no cinema já não incomoda mais. A paixão afrontadora dos amantes nas novelas já não incomoda mais. Os avós envelhecendo juntos, obstinadamente juntos, já não incomodam mais.

Porque hoje eu sou bolha de sabão. Leve, transparente, descompromissada. Prima-irmã do vento. Hoje eu sou música. Insípida, inodora, incolor. A serviço de quem me toca. Hoje eu sou poesia. Lírica, ligeira, estética. À espreita de uma realidade que eu possa representar em versos.

E talvez eu fosse realmente mais feliz enquanto sua cabeça repousava num travesseiro ao lado do meu. Enquanto seu shampoo fazia bagunça dentro do meu box. Enquanto as mangas das nossas camisas se entrelaçavam dentro do armário. Enquanto o seu RG morava, dia sim, outro não, dentro da minha carteira. Enquanto a mesa era posta pra dois.

Mas ser feliz não significa nada, porque felicidade pode ser qualquer coisa: um dia de sol, um dia de chuva, um dia de neve. Uma cocada, uma coxinha, um prato de arroz e feijão. Estar sozinho, estar junto, estar vivo. Ser bonito, ser inteligente, ser bem-sucedido. Felicidade é passageira. Felicidade é bobagem. Felicidade é ópio. Felicidade é anestesia. Felicidade é coisa pouca.

O que eu quero, meu bem, ainda nem tem nome.

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