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Há tanta vida lá fora

Um evento, duas reuniões, três brainstormings, quatro calls, cinco contratos para assinar, seis pastas para organizar, sete textos para escrever, oito planilhas para editar, nove convites para enviar, dez pepinos para resolver. Nem um litro de água. Nem um cacho de uvas entre as refeições. Nenhum bom dia. Correr dentro do escritório é bonito. Mais bonito do que correr no parque. É in, é cool, é trend. É o budget, é o briefing, é o networking. O teambuilding, o feedback, o design thinking. É o caralho a quatro. É a minha surpresa ao me dar conta de que eu conheço absolutamente todas essas expressões corporativas. É a minha decepção ao perceber que eu poderia escrever um dicionário de corporativês. É a minha frustração ao conversar com um interlocutor – brasileiro – que não consegue formular sequer uma sequência de dez palavras em português.

É a minha dor ao perceber que aconteceu o que eu mais temia: eu me tornei um deles. Que vão a meetings, agendam horários no calendar e comem finger foods em coffee breaks. Que almoçam atualizando a caixa de e-mails. Que pagam quarenta reais num prato e o comem em menos de cinco minutos – não sem, entre uma garfada e outra, responder a uma mensagem. Que preferem pegar um Uber com insulfilm, que é pra sacar o notebook da mochila e ir adiantando umas pendências a caminho da reunião. Que saem da Chácara Santo Antônio às 9h40 querendo chegar em Pinheiros às dez – e tendo que pegar a marginal. E que pelo caminho vão xingando quem quer que esteja pela frente – ciclistas, pedestres, outros motoristas ou, no metrô, os desavisados que não deixam a esquerda da escada rolante livre. E que se acham sempre desprivilegiados. Seja pela chuva que – pasmem! – cai sobre todo mundo, seja pelo elevador, que se diz inteligente, mas que para no segundo, no quarto, no quinto, no sexto, no oitavo, no nono e no décimo andar antes de chegar ao décimo segundo, carregando uma pilha de pulhas apressados e atrasados.

Que, com sorte, perceberão, após uma internação por estresse, que a vida é mais do que um salário de cinco dígitos na conta. Ou que, com azar, vão precisar de um infartozinho, de um AVCzinho ou do desprezozinho de um filho para parar. Despertar. Reavaliar. Respirar. Aprender a escutar. A observar. A sentir. A encarar um jantar entre amigos como uma comunhão – e não como um compromisso de agenda. Um fim de semana como o ofício do ócio – e não como 48 horas a mais para trabalhar. Uma cerveja como distração – e não como muleta.

Porque, por mais que os dias pareçam precisar de mais dez horas para serem razoavelmente factíveis, há tanta vida lá fora. Por mais que, aqui dentro, o mundo seja um calvário, há tanta vida lá fora. Por mais que, aqui no fundo, haja mais sofrimento do que certeza, há tanta vida lá fora. E a gente podia aproveitar mais. Sair mais. Andar mais de bicicleta. Rir mais. Respirar mais ar puro. Cantar mais. Ouvir mais música. Abraçar mais. Comer mais comida caseira. Conversar mais. Entrar mais no mar. Dormir mais. Fazer mais amizades. Amar mais, transar mais, deixar mais ir, deixar mais vir.

Nessas horas, eu chego a acreditar que a gente até conhece a cura para o câncer, mas que não tem muito tempo de botar em prática, não. Porque se alguém tem que esperar, que seja a nossa saúde. A nossa felicidade. O nosso bem-estar. Os nossos sonhos. E não o nosso cliente. Nunca o nosso cliente. O nosso cliente? Jamais.

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