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Irmãos sempre e para sempre

Sabe, irmã, sempre fui da opinião de que nada traz mais intimidade do que dividir o mesmo teto. Sobretudo quando esse teto é o útero. Sei que nunca convivemos lá dentro. Você saiu, eu entrei. Mas também sei que naquela sacolinha escura, quente e úmida eu já carregava muito mais de você do que eu poderia imaginar. Afinal, tem um negocinho chamado genética que faz de nós parecidas mesmo antes de nós duas termos decidido torcer para o Palmeiras. Gostar de System of a Down. Ter um projeto de mundo onde a desigualdade social é a primeira coisa a ser combatida. Odiar acordar cedo.

Esse negocinho chamado genética, por feliz coincidência – ou simplesmente por ser genética –, aproveitou muito do seu molde pra me fazer. Cabelos castanhos e lisos. Pele clara. Estatura baixa. Narizinho de batata. Miopia. Sorriso com quarenta dentes. E todas as outras características que nós tanto odiávamos ter em comum há uns vinte anos, porque instigava aquele bando de gente enxerida a nos parar nos corredores do supermercado pra perguntar se éramos gêmeas. De corpo definitivamente não – há um ano e três meses que nos separam. Mas de alma eu às vezes chego a pensar que sim.

Dizem que família a gente não escolhe. Bem, há controvérsias. Porque eu não escolheria outro lugar no mundo que não a mesma casa que você. Aquele quintal minúsculo onde a gente dava voltas e mais voltas de bicicleta. Aquele quarto com aquela mesinha onde você, aos cinco anos, encarnou a professorinha e me ensinou a ler e a escrever com quatro. Aquela sala com aquele carpete onde eu detonava os joelhos, chorava e quase sempre sobrava pra você. Aquele monte de lugar com esse monte de lembrança.

E sempre que me pego lembrando da gente – ou vivendo a gente – me pergunto como há irmãos que conseguem se odiar. Pra mim, o motivo para se odiar um irmão tende sempre a ser torpe. Porque um irmão é insuportavelmente chato quando quer. E tão mandão que até beira o despotismo. E tão folgado que a gente se pergunta por quantos minutos sambou na cara de Jesus crucificado pra ter merecido isso. E tão estúpido que até uma mordida de jiló soa mais doce. Mas é que irmão tem licença poética.

Porque irmãos sempre conhecem cada centímetro das nossas virtudes e cada milímetro dos nossos defeitos – muito mais do que os nossos ~BFFs~. E sempre sabem a maneira mais eficiente de nos fazer sorrir ou de nos deixar profundamente irritados. E sempre têm os melhores argumentos para nos convencer ou para nos fazer desistir. E sempre têm o melhor abraço na ausência de um abraço de mãe.

Porque irmãos sempre são de casa. Porque irmãos sempre são casa. Porque irmãos sempre. E pra sempre.

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