Twiggy Esta foto é sua?

Meu cabelo é curto, e daí?

Modéstia à parte, eu sempre tive um cabelo maravilhoso. Daqueles que seguem todos os padrões impostos pela indústria da moda e da beleza – lê-se liso, brilhante, volumoso e em tons de castanho acobreado. Daqueles que todo cabelereiro gasta pelo menos dez minutos do corte elogiando e chamando todos os profissionais do salão pra apreciar. Daqueles que tomam vento, garoa, chuva, sol, Katrina, tsunami e marofa de show de reggae e continuam, senão bonitos, pelo menos aceitáveis. Daqueles que, segundo as fúteis revistas femininas, toda mulher sonha em ter.

Até que, mais ou menos há 13 anos, eu passei a tesoura. Eis que Judas traiu Jesus Cristo, e eu passei a ser horrorosa. O patinho feio. A mulher-macho. A estranha. Você é louca. Por que você fez isso? Seu cabelo era tão lindo… – notem o tempo verbal no pretérito imperfeito. Como se os fios tivessem perdido todas as propriedades admiráveis só porque não batem mais na altura da bunda. Os menos desrespeitosos vinham com o discurso de que “ai, acho lindo, mas não faria; você é muito corajosa, hein?”. Não. Coragem é largar um salário de cinco dígitos pra ser feliz vendendo coco na praia. Coragem é pular de paraquedas na iminência daquele troço não abrir lá no alto. Coragem é andar sozinho à meia-noite na Praça da República. Coragem é estar na Faixa de Gaza neste exato momento.

Cabelo curto não é questão de coragem. É questão de vontade de experimentar uma coisinha nova, que não seja tão impactante quanto uma droga e nem tão leviana quanto um tempero diferente na carne moída. É questão de sabedoria para entender que cabelo cresce – pode levar três anos e muitos bad hair days, mas cresce. É questão de autoconfiança para perceber que nenhuma beleza pode ser tão pequena a ponto de depender única e exclusivamente de um cabelo que bate na bunda. É questão, acima de tudo, de escolher sem se preocupar com o julgamento alheio.

E se engana quem diz que cabelo curto é mais prático. Quem já teve um joãozinho sabe que, para manter um corte minimamente apresentável, é necessário aparar o cabelo uma vez a cada vinte ou, no máximo, trinta dias. Engana-se quem diz que cabelo curto é masculino – nunca vi o tamanho da crina determinar o sexo do cavalo. Engana-se também quem acha que cabelo curto é mais discreto – um chanel clássico com franjinha (meu status atual, por sinal) arranca olhares de estranheza no ônibus, como se um ET de cinco metros de altura e pelado tivesse acabado de entrar pela porta do motorista.

Mas sabe de uma coisa, meu amigo? Pode olhar com estranheza. Pode achar masculino. Pode achar feio. Pode achar loucura. Pode achar ruim pra puxar na hora do sexo. Pode preferir mulher de cabelo comprido. Pode achar que a beleza da mulher está apenas no cabelo. Mais do que isso, pode achar que beleza é tudo o que uma mulher pode oferecer. Porque se cabelo curto tem uma utilidade prática, eu acabei de descobrir qual é: servir como espanta-babaca.

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