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Meus heróis morreram de depressão

Não sou psicóloga. Mas sou filha de. O que não muda absolutamente nada na minha vida, a não ser a possibilidade de eu encontrar pela casa um livro de Lacan que não seja meu ou uns rabiscos sobre behaviorismo que você não encontraria nas coisas da sua mãe engenheira. E antes de não ser psicóloga e ser filha de, nasci com aquele dispositivo do bom senso até que bem ajustado. Não pergunto de ex na frente de atual, não ofereço peixe empanado a vegetarianos, não tomo suco de caju, escovo os dentes com a torneira fechada, não uso Crocs, sei que Jota Quest não é rock, não entendo como o Alckmin está com 50% das intenções de voto depois de ter fodido sem KY e com areia o estado de São Paulo. E sei que depressão é uma doença.

Robin Williams acabou de cometer suicídio – ao que tudo indica. Pode ser muito cedo pra uma afirmação tão categórica, mas os indícios estão aí, disponíveis pra grande mídia fazer um alarde e pra Sônia Abrão ter assunto pras próximas duas semanas. E uma parte de nós se foi com ele. Uma parte dos nossos sorrisos – aposto que você também riu com a Sra. Doubtfire de “Uma babá quase perfeita”. Uma parte das nossas lágrimas – aposto minhas sete vidas de gata que você morreu de chorar com Dr. Hunter Adams, de “Patch Adams – O amor é contagioso”. Uma parte das nossas reflexões – que Williams suscitava no papel de terapeuta no belíssimo “Gênio Indomável”. Uma parte da nossa infância – que atire a primeira pedra quem nunca quis se aventurar pelo tabuleiro de Jumanji. Mais do que uma parte de nós, uma parte de nossa esperança. Que dizem por aí que é a última que morre. Mas que vai se esvaindo em pedaços, e nos deixa com uma questão que incomoda mais do que a solidão no pós-almoço de domingo: como alguém que parecia ter controle sobre as nossas emoções não tinha controle sobre as próprias?

Difícil de explicar. Mas Freud explica direitinho. A gente pode até relutar para aceitar, mas a depressão existe e está mais próxima do que a gente imagina. No nosso irmão que não frequenta mais eventos sociais. No nosso vizinho ~estranho~ que mal fala ‘bom dia’. Na nossa colega de trabalho que mais falta do que aparece para trabalhar. Na nossa avó, que nunca mais colocou aquelas roupas coloridas de que ela tanto gostava para sair de casa. Em todos aqueles que a gente não se cansa de discriminar, a cada vez que profere um “isso daí é falta de esforço”. Ou um “ficar aí deitado não vai resolver nada”. Ou um “você também não faz nada pra melhorar…”.

Que a partida de Robin Williams nos sirva como mais do que um simples motivo para chorar, para resgatar alguns filmes antigos no Netflix ou para sair escrevendo discursos emocionados nas nossas redes sociais. Que o trágico fim do nosso eterno menino Peter Pan seja, enfim, o ponto de partida para uma reflexão mais sensata sobre uma doença silenciosa que atinge mais de 350 milhões de pessoas de todas as idades no mundo. E que pode ser implacável. Assim como foi pra Fausto Fanti. E pra Amy Winehouse, que era só uma drogada que merecia o fim que teve. E pra Kurt Cobain, que era mais um loirinho bonitinho e problemático. E pra Jim Morisson, que era um daqueles roqueiros que não tinham Deus no coração. E pra Van Gogh, que era só mais um louco, a começar por suas pinturas atordoantes. E pra Santos-Dumont, que era um cara que vivia de utopia – até queria voar, acredita? E pra mais um milhão de pessoas a cada ano. Gente que talvez a gente conheça. Gente que provavelmente nunca vai cruzar o nosso caminho. Gente que, com certeza, precisa de menos sabedoria de boteco e mais compreensão. Menos dedo apontado na cara e mais amor. Menos distância e mais ajuda.

Se os heróis de Cazuza morreram de overdose, os meus morreram de depressão.

E aqui vai uma tirinha para reflexão.

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