Na subida do meu morro – Uma crônica sobre a felicidade de ser simples Esta foto é sua?

Na subida do meu morro – Uma crônica sobre a felicidade de ser simples

Nasci na periferia de São Bernardo do Campo, terceira maior cidade da região metropolitana de São Paulo que relega quase um terço de seus pouco mais de 800 mil habitantes às mais de 250 favelas da região. Graças ao que os mais crentes chamam de Deus, não sei o que é passar fome, frio e falta de carinho – embora também não imagine o que é ter do bom e do melhor. Meus pais sempre suaram, e eu comecei a suar cedo para conseguir ganhar e depois manter a bolsa de estudos que me possibilitou frequentar um dos colégios mais caros da cidade. Talvez eu seja uma daquelas pessoas ideais para dar aquelas lições de moral ridículas de gente que prosperou na vida e conseguiu uma boa formação, reconhecimento e um bom emprego mesmo sem ter as melhores condições pra isso. Mas acho esse discurso de “minoria inspiradora” extremamente excludente e quero poupar vocês de toda essa demagogia barata. Hoje eu quero mesmo é falar da minha periferia.

Não nasci no morro. Mas sempre tive diversos deles como paisagem da janela para admirar com binóculos. E não me poupava a fazer disso uma das minhas maiores diversões de todas as tardes. Eu conhecia todo o relevo daqueles morros. Que tinham subidas íngremes, sim. Mas que nunca impediram que alguém conquistasse o seu topo. Como num Everest de terra avermelhada. A cadência era sempre a mesma. As casas brotavam nas encostas, e depois começavam aquele caminho ladeira acima. Num dia era fogo – e eu, pai, mãe e irmã íamos observar, do nosso quintal, aquela fumaça tão tóxica quanto fascinante. No outro era tapume – aquelas madeiras rosadas que cercam canteiros de obras. No outro começava a construção de alvenaria. E então, já havia mais uma corzinha despontando no meu horizonte.

É estranho como as cores brigam e se harmonizam por lá. O céu é mais colorido do que azul. Tá mais pra gelatina fantasia do que pra bala de anis. Pouco importa se há sol ou não – o dia sempre é colorido. A menos que a neblina caia branca e implacável por sobre as casinhas, como o cabelo do Cid Moreira. O que inegavelmente acontece por volta das duas da tarde pelo menos umas três vezes por semana na periferia de São Bernardo – sabiamente apelidada de São Berlondres, ou a Londres sem o glamour londrino. A Londres das cores. O maior show room da Suvinil é lá. No morro, eu via todas as nuances possíveis de vermelho, azul, amarelo, verde, rosa, laranja. Mas duas casinhas, em especial, sempre me chamaram a atenção: a amarela com janelinhas de madeira, planejada no formato daquelas casinhas que a gente costuma desenhar na escola, e a pomposa salmão, que unia em sua fachada duas escadas brancas que ligavam nada a lugar nenhum.

Aquelas casas eram mais bonitas do que a minha. Bem mais. Porque quem mora na favela não paga IPTU nem conta de água, luz e telefone – era o que me diziam –, aí sobra dinheiro pra investir na casinha. Não sei se algum dia acreditei nisso, porque pra mim, botar um bom arroz e feijão no prato sempre veio à frente de comprar um portão bonito ou de pintar a fachada todo ano. E que me perdoem Alex Atala, Rita Lobo, Olivier Anquier e Carla Pernambuco, mas arroz e feijão cheiroso como o da periferia não há. Não sei se é porque a proximidade das casas geminadas faz o cheirinho ficar curtido, ou se é porque a nêga tem que cuidar das crianças e a comida acaba cozinhando demais. Mas é implacável: dá onze horas da manhã e a gente começa a sentir o cheiro do alho refogado. Que vai evoluindo para a água fervente com Sazón, para o arroz secando na panela, para o feijão fumegante, para a mozarela derretida no prato.

E ao som de um samba, que podia ser um Noel Rosa, ou de um sertanejo, que podia ser um Zezé e Luciano, ou de um forró, que podia ser um Frank Aguiar, a tarde avançava até cair, anunciando que em breve chegaria a hora de colocar a mesinha de madeira no quintal de paredes descascadas para comer uma carninha de segunda, em cima do joguinho americano com motivo de ursinho, e tomar um suco de laranja feito no espremedor elétrico nos pores do sol do horário de verão.

Caco Antibes que me perdoe, mas, ah, que delícia que é ser simples.

Minhas origens eu não nego. Não sou do morro. Mas sou da subida dele.

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