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Não canse o amor

Ele se chama Fernando. Não que tivesse cara de Fernando. Mais parece Eduardo ou Bernardo. Mas vamos chamá-lo de Fernando, embora quase ninguém o chame assim – seus amigos lhe chamam de Nando, sua família de Fê e seu pai já não fala com ele desde 2001 – nunca perguntei por quê. Ela se chama Sophia. Não pelo livro, escrito com “f”, mas sim por causa da atriz Sophia Loren. Seus pais, certo dia, assistindo o clássico “La Ciociara”, do Vittorio De Sica, ficaram encantados com a moça – na verdade, seu pai ficou encantando e sua mãe morta de ciúmes, mas ele conseguiu convencê-la a chamar a primeira filha de Sophia. Sophia, também, gostou do seu nome.

Antes de conhecer Sophia no show que a banda Dinda realizou no Planetário da Gávea, em 2012 (“Aquele foi o melhor dia da minha vida”, ele diz sempre quando está alegre-ou-bêbado demais), Fernando gostava sair com seus amigos Pedro e Gustavo. Ou Joaquim e Sebastião. Tanto faz. Não me lembro ao certo agora os nomes dos seus amigos. Sei que eram dois. Dois amigos prediletos. Nas segundas, os três iam ao bar da esquina 43. Nas terças, bebiam no apartamento do Fernando. Nas quartas, assistam futebol – e bebiam – na casa do Pedro-ou-Joaquim. Nas quintas, no apartamento do Gustavo-ou-Sebastião. E nas sextas, depois do trabalho, iam novamente ao bar da esquina 43. O dono de lá, seu Maneco – português roxo e vascaíno doente – adorava os três rapazes. Chamava-os de “putos” ou “miúdos”, sempre num tom doce e amigável. Nem sempre, os amigos bebiam. Nem sempre bebiam muito. Mas sempre se encontravam, falavam de garotas, de futebol, de política, de religião e de garotas, novamente.

Sophia, antes de se atrasar para o show da Dinda e conhecer Fernando, gostava de ficar sozinha. Não o tempo todo. Mas adorava o silêncio de estar só em casa, cuidando de si, vendo filmes antigos – algo que herdou com seus pais –, fantasiando coisas e aprendendo a cozinhar. Ela já era auxiliar de cozinha de um restaurante da zona sul, trabalhava até às onze da noite e, depois do expediente, quase sempre ia para a casa de algum amigo do trabalho. Lá, iam todos, bebiam, fumavam baseados e, é claro, cozinhavam. Nem sempre havia flerte – quase nunca havia beijos surpresas ou tentativas de. Apenas Marcelo e Beatriz, que já namoravam antes mesmo de trabalhar no restaurante, trocavam carícias amorosas por lá. De resto, eram umas dez pessoas que só bebiam, fumavam baseados e cozinhavam.

Ai, no dia do show da Dinda – no qual Fernando chegou cedo e Sophia atrasou, mesmo sem ninguém ter marcado nada com ninguém –, os dois se encontraram meio por acaso-sem-querer-destino. Ela foi ao bar comprar uma água (“Estava insuportavelmente quente aquele dia”, ela lembra) e Gustavo-ou-Sebastião foi comprar cervejas para os amigos. Gustavo-ou-Sebastião tentou alguma aproximação com a moça, que logo descartou qualquer flerte ou coisa assim. Voltando, Gustavo-ou-Sebastião falou aos dois amigos: “Encontrei uma mulher linda no bar, vestido vermelho e cabelos pretos”. Depois, voltaram a falar de futebol, política e religião.

Um pouco depois da banda tocar “Queria me enjoar de você”, Sophia passou por querer em frente aos três rapazes. Mulher sabe quando alguém está a olhando descaradamente e faz questão de passar perto só para exercer seu papel dominante de alguma relação que muitas vezes nem acontece. Fernando se encantou pela pequena – não pelo vestido vermelho ou por seus cabelos pretos, mas porque ela tinha um nariz fino, tornozelos branquinhos, coxas meio-finas-meio-grossas e era a única do local sem saltos altos e maquiagens gritantes (“Ela era perfeita”, ele lembra). Apaixonou-se, foi até a moça, conversaram, beijaram-se e, antes mesmo da Dinda encerrar o show com “Flor da Noite”, queriam se casar, ter dois filhos – Pedro ou Joaquim e Isabel ou Eduarda – e morar em Teresópolis, na serra, no frio e debaixo do edredom.

Não casaram. Mas começaram a namorar. Ficavam sempre juntos. Juntos. Juntos mesmo. Tão juntos que Fernando já não ia mais ao bar da esquina 43, nem na casa do Pedro-ou-Joaquim e/ou no apartamento do Gustavo-ou-Sebastião. Agora, seu Maneco o chama de “puto” sem tom doce ou amigável, mas com um quê de saudade e seus amigos, que outrora o alcunharam de Nando, depois disso, começaram a chama-lo ironicamente de “Falecido”. Do outro lado, a mesma coisa. Sophia, depois do expediente, não fumava mais baseado, nem bebia, nem cozinhava mais com os amigos do trabalho. Nem ficava mais tempo sozinha em casa. Quando estavam em cômodos diferentes, era um misto de alívio e salvação. Ou caso alguém “sumisse” por algumas horas, o outro lhe enchia de ligações e mensagens como uma mãe solteira que perdeu os filhos no shopping. Saudade tem pressa, eu sei. Mas nem tanto.

Até que o casal terminou um ano e meio depois do show da Dinda. Na verdade, terminaram antes mesmo de seis meses, mas continuaram juntos, empurrando com a barriga, reclamando aos ventos e, cada vez mais, sentindo falta dos bares, dos passeios com os amigos e do ar puro de uma independência bonita.

Hoje cedo, antes de escrever isso aqui, o Fernando me disse que ainda é apaixonado pela ela, mas que se pudesse, faria tudo diferente (“A convivência me cansou, estávamos muito preso a nós mesmo”, ele me contou). Isso sem falar que no domingo, quando fui ao apartamento do Rogério – chef de cozinha no restaurante onde Sophia trabalha – e, depois de alguns baseados, ela me confessou que também sente falta do Fernando, mas viver sozinha, conhecer pessoas e poder encontrar o pessoal do trabalho-depois-do-trabalho são coisas que ela nunca deixará de fazer por ninguém.

Entende o que quero dizer?

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