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Não diga mais que não tem tempo

Só existe uma coisa mais chata do que gente que empurra as decisões com a barriga: quando essa pessoa é você. E ainda mais quando a desculpa está na ponta da língua e quase apagado do teclado de tanto que dizemos e digitamos: não tenho tempo.

Para quem diz, essa frase é, ao mesmo tempo, algoz e auto-piedade. O sofrimento de não ter tempo logo se torna uma desculpa para não fazer um milhão de coisas que, na verdade, você não quer fazer, mas não admite. Tem preguiça até de admitir.

E o pior é que quem diz que não tempo não sente culpa. A frase (e o sentimento) está tão encalacrado na vida das pessoas, que se tornou quase o “hummm, que delícia” do almoço da vó ou o “que lindo” pro rabisco da criança. Mentirinhas permitidas, que a gente nem perde tempo (que não temos, claro) pensando.

O problema é para quem ouve. Ouvir de alguém que não tem tempo para te ver é se sentir sempre em segundo plano. Escutar que a pessoa não tem tempo para cuidar dela mesma (malhar, fazer comida, ir pra academia) é sentir pena. Dó. Daquele ruim, que aperta o coração. É pensar que a pessoa está trabalhando demais e por isso pode ter um AVC enquanto, na verdade, talvez ela esteja apenas deixando as coisas para a última hora, enrolando um pouco mais na cama e procrastinando decisões.

Existem, claro, aqueles para quem o tempo parece se multiplicar. Como uma amiga que faz academia e faculdade de manhã, trabalha a tarde e a noite e ainda arruma tempo para ler os melhores livros, ouvir os discos novos, deixar a casa em ordem, cuidar do cachorro, namorar, ver os amigos, pesquisar receitas e fazer marmitas. Nunca a ouvi dizer que não tinha tempo.

Resolvi testar. Há dois meses, exclui essa maldita frase feita da minha vida. Vi mais amigos, escrevi mais, deixei a leitura em dia. Descobri (vejam só!) que dá tempo pra tudo quando a gente para de perder tempo dizendo que não.

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