Não morra sem: ler o espetacular "Ensaios de amor", um livro em que o coração pensa em voz alta Esta foto é sua?

Leia o espetacular “Ensaios de amor”, um livro em que o coração pensa em voz alta

Vejo muito uma cena recorrente em livrarias. Pessoas procurando por um livro, do tipo que mude a vida, aquele que tenha uma solução prática pras respostas sem perguntas (e não ao contrário), aquele que diga algo diferente do que os interlocutores costumam repetir de forma compulsória e resolutiva, aquele que nos desperte um interesse incondicional, que seja companheiro para qualquer cenário: o banheiro, a cabeceira, o metrô, a tristeza, o ócio, a dúvida, a carência, a solidão na cidade.

Procuro sempre aquele tipo de publicação que consiga manter uma constante de epifanias em sua duração. Não sei se sou mal acostumado, tenho esse meu vício em frio na barriga, e quero sempre o mais incrível, garantido, peneirado, lapidado. É como se eu não aceitasse o morno e o médio por uma questão simples e prática: não terei tempo de ler tudo o quero na vida, a lista é grande demais, é preciso filtrar. Não tenho dó de abortar um livro caso ele não me conquiste nas primeiras 30 páginas e com o tempo você vai aprendendo a sacar se o que vem pela frente vai dar frio na barriga ou tédio agudo.

Fazia um tempo que eu não tinha uma leitura tão cheia de preenchimento, relevância, e profundidade não parnasiana. Ler finalmente uma obra do suíço Alain de Botton foi como botar os sentimentos em dia ou “não estar sozinho no mundo”. Suas construções de pensamento parecem espelhar exatamente nossas aflições sobre o amor, dizem perto, encostam nas reflexões. Em sua forma de comunicar o que sente, acontece algo inusitado: o coração parece pensar em voz alta, sem subjetividades, mas ainda assim de forma lúcida, é como se cada diálogo existisse em nós.

A história começa com um casal que se conhece em um voo que está indo de Paris a Londres, eles vão se conhecer e vão viver uma história de amor, mas isso é secundário. O fluxo narrativo vai além da descrição factual. Vamos acompanhando também a organização de ideias do narrador-personagem, e o que ele pensa sobre o seu relacionamento. Suas observações se prolongam em nós, ruminamos cada página, existe ali um relato completamente coerente e inquietante do itinerário sentimental. Como o amor começa? Como ele termina? Em que curva da relação começamos a desgostar de alguém?

Esse livro não é uma simples dica, é quase uma recomendação médica, na linha “não morra sem ler”. Após termina-lo sinto a exata sensação de que eu penso, logo amo.

Separei cinco trechos para uma apreciação imediata do que disse:

“No cenário típico da traição, um parceiro pergunta ao outro: “como você pode ter me traído com x quando disse que me amava?”. Mas não existe contradição entre uma traição e uma declaração de amor se o tempo for colocado na equação. “Eu te amo” só pode significar “Eu te amo agora”. Eu não estava mentindo para Chloe, mas minhas palavras eram promessas escravas do tempo – uma verdade demasiado perturbadora para que seja aceita abertamente na maioria dos relacionamentos, Caso contrário, os casais teriam pouco do que falar, à exceção das flutuações de seus sentimentos.”

“Os rostos mais interessantes geralmente oscilam entre o charme e a deformidade. Há uma certa tirania da perfeição, até mesmo uma certa exaustão a seu respeito, algo que nega ao espectador um papel em sua criação e que se sustenta com todo o dogmatismo de uma afirmação não ambígua. A verdadeira beleza tem apenas alguns ângulos dos quais pode ser vista e, mesmo assim, não sob todas as luzes e não em todos os momentos. Ela flerta perigosamente com a loucura, assume riscos consigo mesma, não se ajusta de modo confortável com regras matemáticas de proporção, tira seu apelo justo daquelas áreas que também servirão à feiura. Proust disse certa vez que as mulheres de beleza clássica deveriam ser deixadas para homens sem imaginação.”

“Toda paixão envolve o triunfo da esperança sobre o autoconhecimento. Nós nos apaixonamos esperando não encontrar no outro o que sabemos estar em nós mesmos – toda a covardia, fraqueza, preguiça, desonestidade, comprometimento e estupidez bruta. Jogamos um laço de amor sobre o escolhido, e decidimos que tudo o que cair dentro de algum modo estará livre de nossos defeitos e, portanto, digno de ser amado. Localizamos no outro uma perfeição que nos ilude dentro de nós mesmos, e por meio da união com o amado esperamos de alguma forma manter (contra evidências de todo o autoconhecimento) uma fé precária na espécie.”

“ –Você já foi preso na alfândega ? – perguntou Chloe. – ainda não. E você, foi?

– Não exatamente, uma vez fiz uma confissão. Um nazistão lá me perguntou se eu tinha algo a declarar, e eu disse que sim, muito embora não estivesse carregando nada de ilegal.

– Então, por que disse que estava?

– Sei lá, acho que me senti culpada. Eu tenho uma tendência horrível para confessar coisas que não fiz. Sempre tive fantasias sobre me entregar a polícia por algum crime que não cometi.”

“Na miragem de um oásis, o homem com sede imagina ver água, palmeiras e sombra, não por ter provas da sua existência, mas porque precisa desesperadamente delas. A necessidade provoca a alucinação da sua satisfação: a sede traz a alucinação da água, a necessidade de amor traz a alucinação de um príncipe ou uma princesa. O complexo do Oasis nunca é uma ilusão completa: o homem no deserto vê algo no horizonte. Acontece apenas que a as palmeiras estão ressecadas, o poço secou e o lugar está infestado de gafanhotos.”

Comentários