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Não quero amar alguém cagão

Todos carregamos algum buraco dentro de nós, alguns mais fundos que os outros. Nas costas, nos ombros, no coração. E esses buracos são feitos de histórias e pequenos traumas que, muitas vezes, passam despercebidos; um esquecimento da família ali, um relacionamento mal resolvido, ou abusivo, acolá, um algo diferente que a gente carrega conosco, mas não dividimos com ninguém por receio de receber um olhar de estranhamento, uma saudade que por anos fingimos ser besteira, um medo de se entregar ao amor, à vida, às pessoas. Coisas, muitas vezes, aparentemente pequenas no exterior, mas, a longo prazo, gigantes internos.

Acontece que todos carregam um buraco consigo, mas nem todos conseguem ver o quão profundos são. Um pouco de falta de autoconhecimento e um apavoramento enorme de olhar para o interior e admitir que não são tão belos assim. Atitudes de quem, em sua maioria, se diz forte, seguro de suas vontades e fraquezas, mas no fundo faz coleções de cagaços. Quantas vezes conheci pessoas, aparentemente, bem resolvidas, que colocavam as suas “não frustrações” como troféus na prateleira, que diziam, em alto e bom som, que não sofrem, que têm facilidade de esquecer os outros, as mágoas, as tristezas, os pânicos. E eles realmente acham que não sofrem, que têm domínio das próprias sensações, e que o mundo, por sua vez, é cheio de mágoas ambulantes. Mas, depois do surgir de algum sofrimento inesperado, dizem, com aquele olhar desacreditado, que não há amor no mundo ou que as pessoas não sabem amar como eles. Pobres, coitados. Fato é que muita gente não sabe se deixar sofrer, mas quer conseguir amar como se não houvesse amanhã; quer entregar somente metade de si, mas quer que os outros se entreguem por inteiro… e convenhamos, amar nunca pode ser injusto.

Com o tempo, e o com o chacoalhar da árvore das verdades absolutas, a gente percebe que acumular sofrimentos para depois colocá-los na caixinha do “depois penso nisso” não é, nem nunca foi, uma saída inteligente. De nada adianta dizer que não sofre, que tem certeza das escolhas, e depois, quando já é tarde, chorar, pedir para voltar em relacionamentos que já são passados, ficar com saudade da família, das amizades, das memórias que descartou sem dó. Aí se empertigam, estufam o peito e tampam os vazios com outros vazios; relações vazias, beijos vazios, saudades vazias, argumentos vazios e mais algumas formas supérfluas de mostrar ao mundo que estão bem, que são bons no que fazem e que merecem aplausos. E no fim, em suma, não aprenderam nada, continuam com as mesmas verdades absolutas, colocando a culpa nos outros e na forma que o mundo distribui seus momentos de amor.

As tristezas, carências, medos e inseguranças que duram por anos, muitas vezes mascaradas, são sempre um buraco que a gente não preencheu com o amor, cuidado e atenção necessários. Tapar o buraco com aquele tapete velho que guardamos debaixo da cama com medo de calcular a profundidade, é sempre uma solução de gente fraca, medrosa, mas que acha que é forte e que tem domínio dos demônios que nunca abraçou. Sinceramente, não confio no amor de pessoas que não sabem ser vulneráveis, frágeis, entregues. Talvez essa seja a palavra que estava procurando durante o texto inteiro: vulnerabilidade. Não há como amar sem se livrar das armaduras, do medo dos traumas se repetirem, do pavor do buraco ficar cada vez maior. Amar com segurança é antagonismo. Amar é ser vulnerável; e ser vulnerável é deixar um espaço aberto no peito para preencher com coisas importantes e bonitas, e quem não vive as tristezas com vulnerabilidade, nunca saberá viver as alegrias com verdade.

É… a gente se engana para não encarar muitas dores de frente. E podem perceber que quem sabe sofrer, em sua maioria, é também quem sabe amar com verdade. Quem sabe ser vulnerável é muito menos vulnerável do que quem hasteia a bandeira de um desapego que, no fundo, a gente sabe que não existe. Enfrentar os medos, os amores passados e as desculpas que a gente dá para fingir que é feliz, isso sim, é coisa de gente corajosa, até porque de cagão já basta o coração dos outros.

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