Esta foto é sua?

Não tem como mudar de coração

Ela entrou no carro e ligou o som. Só para preencher o ambiente, não para escutar algo específico. Deixou numa rádio que cantava algo em inglês e não se deteve na tradução. Foi dirigindo pro trabalho sem pressa. O trânsito já muito engarrafado a fez exercitar ainda mais a calma. Num sinal fechado, viu uma cena diferente: um casal vestidos para o casamento. Um noivo e uma noiva. Sorrisos patéticos no rosto enquanto tiravam fotos e uma inveja que crescia dentro dela sem que percebesse.

Puta cena cafona.

Vinte minutos depois estacionou no prédio em que trabalhava e seguiu ainda pensando no casal. A cabeça tinha dado um nó e deixou transparecer isso enquanto colocava adoçante no café na cozinha do escritório. Tá tudo bem, alguém perguntou. Sim, por quê!?, respondeu ríspida. Nada, nunca é nada. Quando o coração aperta e tanta coisa volta à cabeça essa é a melhor resposta sempre. Nada, nada, nada.

Na verdade? Tudo fazia doer.

Era pra ser ela, não aquele casal. Não naquele farol, mas com aquela roupa. Não naquela manhã, mas numa data já passada do calendário em que tinha feito planos e idealizado um caminho. Era pra ser ela com toda a pompa e circunstância do momento. Com véu, grinalda, flores e o sorriso que, de alguma forma, tinha se perdido pelo caminho. E se lembrou de quantas vezes aquele momento tinha ocorrido, mas sem conseguir entender porque ele voltava com tanta intensidade agora.

Forçou a memória até recordar a despedida. Se viu novamente embalando caixas, arrumando malas e jogando na cara dele tudo que estava engasgado. Toda desconfiança, todo rancor por pequenas coisas, toda a frustração por desistir de um futuro que tinham planejado juntos. E, então, pôde ver como tinha sido orgulhosa. Coração que deixa o orgulho se instalar sofre duas vezes: na saída e nas recaídas. Essa era uma das piores delas.

Não precisava de ninguém pra dizer que não se substitui um grande amor. Você pode trocar tudo – da rotina até os hábitos, mas nunca vai poder trocar de coração. E quando ele apertar e gritar a saudade e destampar feridas mal curadas, vai fazer lembrar de tudo que passou. Vai jogar na cara, vai pisar e com certeza vai doer. E pode até ser que ela passe sem causar muito estrago, mas volta e meia vai voltar só pra rememorar que se pode mudar tudo, menos o que já foi feito. E alguma coisa sempre vai fazer lembrar.

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