Esta foto é sua?

Nós, que somos perdidamente apaixonados por nós mesmos

Narciso é um cara bem legarrr, pena que não pode ver o reflexo de sua própria imagem. Não sei exatamente onde nem quando, mas certamente, se você mora no planeta Terra e é da espécie Homo Sapiens, já ouviu o mito de Narciso. Levianamente falando, ele era um bonitão que certo dia foi se olhar no lago, apaixonou-se perdidamente pela própria imagem e, na tentativa ilusória de alcançá-la, caiu lago adentro e morreu afogado. Coitado.

Tem umas liçõezinhas bem bacanas que a gente pode tirar dessa história toda. Pode, mas não quer. Ou até quer, mas prefere gastar o tempo livre testando mil e uma caretas na frente do espelho para tirar aquela selfie arrebatadora de likes no Facebook, corações no Instagram e outros corações na vida real. Lamentável. Aliás, outro dia deu no jornal que, neste ano, selfies mataram mais do que ataques de tubarão. Doze contra oito. E o que é morrer de selfie senão ser o Narciso do século XXI?

Absurdo. Eu, como repudio toda essa onda, prefiro ocupar melhor o meu tempo livre. Lendo um livro, assistindo Netflix, discutindo na boemia da mesa do bar. Enfim, absorvendo cultura.

Ontem, por exemplo, fui ao show do Zeca Baleiro. Pela décima quinta vez na vida, acho. Fui direto da academia. Depois de levantar halteres e fazer leg press olhando a minha cara de sofrimento no espelho, fui tomar um banhão no vestiário. Enquanto me secava, encarava a minha bunda. Que tem uma celulitezinha ou outra, mas que certamente não passaria vergonha na praia de Santos – em Ipanema é outra história, amigos. Botei uma roupinha, fiz uma make básica. Me produzi. Afinal, o teatro é escuro, mas eu tenho luz própria.

Aliás, sempre que vou a qualquer show fico imaginando se a banda consegue me ver. Porque certamente a luz que emana de mim me faz ser diferente de toda aquela plateia cheia de gente comum. E, acima de tudo, porque eu sempre sei cantar todas as músicas – do Zeca, então, nem se fala. E, cara, modéstia à parte, eu canto bem. É um desperdício os artistas não me chamarem para subir ao palco pra um dueto. É que eles ainda não me conhecem, eu penso. Então, já que Bruna não vai até o palco, o palco vem até Bruna.

Fecho os olhos para desviar do incômodo ocular causado pelos holofotes e canto alto, principalmente as músicas mais lado B, aquelas que a maioria dos espectadores desconhece – assim, não tem ninguém pra encobrir o meu talento. Gosto de cantores de vozes graves porque consigo cantar uma oitava acima sem parecer uma gralha. É o caso do Zeca. Nosso dueto sempre fica lindo. Eu, se estivesse perto de mim na plateia, agradeceria por ter visto dois shows pelo preço de um.

Cantando, começo a admirar o teatro, que é lindo, uma arquitetura meio colonial. Que pé direito enorme, hein? Dava bem para amarrar uns tecidos lá no alto e eu fazer umas acrobacias. Imagina um espetáculo circense conduzido por mim no meio de um show do Zeca? Botaria qualquer show do Teatro Mágico no chinelo. Ou podiam colocar aqueles fios de nylon de espetáculo da Broadway pra eu sobrevoar a plateia. Tipo uma Claudia Leitte no Rock in Rio 2011. Só que bem-sucedida, claro. Certeza que iam me notar, me fotografar, me aplaudir. Enfim, fazer jus a esse look tão maravilhoso que estou vestindo hoje.

Nada disso tendo acontecido, tomo o rumo de casa. Descolo uma caronex com uma amiga. Eu poderia brigar com outras amigas para ir no banco do passageiro, mas prefiro mesmo ir no de trás. Enquanto elas conversam sobre futilidades como as luzes novas que fizeram nos cabelos, peço para que a motorista acenda a luz do teto sob o pretexto de procurar a chave de casa na bolsa. Ela acende, e para a minha surpresa, o espelho retrovisor está ajustado de maneira a refletir a minha boca. E que boca…Carnuda na medida certa, com vestígios do batom passado no começo da noite e com uma pintinha bem discreta no canto inferior esquerdo. Sorrio para o espelho. Ah, que sorriso… Os dentes grandes, numerosos e alinhados graças a oito anos de aparelho e de acompanhamento fonoaudiológico. Me curvo um pouco e, agora, o espelho enquadra os meus olhos. Ai, que olhos. Escuros, grandes, daqueles em que eu me perderia se… Já não estivéssemos na frente de casa.

A única coisa que me consola é que tem espelho no banheiro, e enquanto eu estiver escovando os dentes antes de dormir, posso me admirar mais um pouquinho. Ver como sou linda. Como minhas tatuagens ornam com a estampa da minha blusinha. Como Deus levou a sério aquela história de nos criar à sua imagem e semelhança quando me concebeu. Mesmo que isso signifique menos horas de sono. Afinal, já dizia mamãe: tempo investido em você, filhota, nunca é tempo perdido.

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