cadeados Esta foto é sua?

O amor precisa da presença, não da eternidade

Em Paris existe uma ponte em que casais selam o amor eterno trancando cadeados simbólicos nas grades de proteção. Por uma ironia do destino, essas grades começaram a ceder devido ao peso desses cadeados. São muitos, muitos mesmo, de várias cores e amores. Vejo nisso uma irônica metáfora. Existem pesos que o amor não aguenta. Amor não se tranca, não é gaiola, não é nó. Amor é laço. O cadeado é o paradoxo do amor, não a representação.

Existem os que na vida abraçam a contradição. Existem aqueles que se escondem na hipocrisia. A hipocrisia é quando você mente pra si e pros outros tentando fingir que a contradição não existe. Existem os que pensam que no mundo todos falam a verdade. Existem outros que sabem que gente verdadeira é aquela que de tão honesta, assume que mentiu.

Existem os que pregam o amor no Facebook, talvez porque o “amor” seja diretamente proporcional ao like. O curioso é que alguns desses pregadores são pessoalmente agressivos. O amor, às vezes, pode ser só essa mentira que serve de alívio social. Gente agressiva sente ressaca moral, geralmente se arrepende, mas pra num doer tanto, abraça a hipocrisia de achar que o problema é sempre o mundo, não ela. Essa gente nos ensina tudo o que o amor não é, ou que ele é, mas nunca assume ser.

Tem gente que sofre tanto por amor que precisa provar pros outros que já esqueceu a pessoa amada. – Ah, preciso contar que já me esqueci de fulano! O interessante é que quando alguém alardeia que se esqueceu de uma pessoa, está nesse mesmo momento cometendo o ato da lembrança. O amor às vezes não esquece, ele apenas não lembra. Ou lembra, sem querer.

E o mundo é assim, cheio de contradições e falsos alívios. Eu por exemplo como um prato gigante de comida, mas pra “amenizar” minha culpa, peço junto uma Coca-Zero. Quem fala do defeito alheio acaba de mostrar um dos seus. Existe gente que diz não fazer questão de elogios, e nessa hora está elogiando a si mesma. E tem o maço de cigarros que é quase a metáfora do cafajeste confesso: ele diz que é bonzinho, mas no verso avisa escancaradamente: – vou te fazer mal. Quem diz que não se preocupa com a opinião alheia, acaba de se preocupar em dizer isso. Quanto mais você se esconde, mais aparece tentando se esconder. Tem gente que na igreja promete que é pra sempre e um belo dia, descobre que não era bem assim. Eu era contra a Copa no Brasil, mas não via a hora dela começar. Diz à frase: “tem gente que é tão pobre, que só tem dinheiro”. Hipocrisia é um paradoxo inconfessável, mas não invisível. Tem gente que fala dos políticos desonestos, mas que vive furando fila. Tem intelectual de esquerda com discurso inclusivo, mas que de tão arrogante, segrega. Tem gente que se defende do racismo praticando machismo, e gente que é contra a homofobia, mas vive sendo gordofóbica. E essa moda de criticar a moda que nunca se acaba. Seriam neo-hipsters os que destilam discursos contra os hipsters, mas se comportam como tais. Gente que se acha tanto a exceção da exceção que é previsível por querer sempre surpreender. Gente que oprime o Português do outros, mas que vive pedindo pro Google “soprar” a palavra certa.

Não, o perigo não é o paradoxo. Um dia você descobre que ser contraditório é da nossa natureza. Perigo é achar que o mundo é sempre coerente, que as peças sempre se encaixam e que as pessoas nunca derrapam em suas supostas verdades. Ser leve é assumir as suas fragilidades. O mundo precisa de mais espelhos e menos escudos. O amor precisa é da presença, não da eternidade.

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