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O dia em que vendemos a nossa paixão

Teoricamente, todos nascemos livres. Pelo menos é o que diz a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Tenho dúvidas quanto à veracidade disso na prática – afinal, tem muita gente por aí que nasce condenada por causa da cor da pele, da classe social, do gênero, da crença religiosa, da orientação sexual, da forma física e de muitas outras coisas que vão muito além da minha compreensão. Porém, entre correntes e amarras, uma coisa é certa: a gente nasce devendo menos pro mundo do que deve hoje.

Não é só uma questão de dinheiro. Mas é também uma questão de dinheiro. Entre nascer, tomar algumas mamadeiras, sujar umas fraldas, comer, vestir, se divertir e estudar o básico, você já deu um baita gasto pros seus pais – ou para quem quer que tenha o criado. Economistas, com base em cálculos que fazem sentido pra eles, mas talvez não façam pra você, estimam que esses gastos variem de R$ 200 mil a R$ 1 milhão. Uma puta dívida. Que, na verdade, a gente espera que tenha sido recompensada com carinho, beijo de boa noite, ‘bença, mãe’, louça lavada, cama arrumada e boas notas na escola.

Acontece que um dia a gente cresce. Mamãe e papai deixam de patrocinar. E a gente tem que aprender casino online a ganhar o nosso dinheiro. Por mais contrários que sejamos ao sistema monetário, a gente tem que se inserir nele – a menos que tenhamos um pedacinho de terra e um pedacinho de paz para viver da pesca, da coleta e da caça. E é aí que mora o problema. Não que a gente não seja dotado de nenhum talento – muito pelo contrário. Todo mundo sabe fazer alguma coisa bem. Mas, geralmente, pelo que a gente sabe fazer, o mundo não quer pagar. Tipo escrever, desenhar, cantar, dançar, jogar bola, lutar, correr, atuar. E aí a gente se vê na nossa grande e, por vezes, eterna dívida com o mundo: deixar de servi-lo com o que faz o nosso coração pulsar para transformar o nosso talento em algo vendável. A gente deve paixão.

Que é pra não dever dinheiro. Afinal, a gente precisa comprar o tênis da moda, ir à balada que acabou de abrir, tomar cerveja importada. Pagar conta de luz, de água, de telefone. Bancar aluguel, comer, estudar. Sustentar nossas necessidades. E nossos vícios. Que talvez, se fossem cortados, possibilitariam que a gente vivesse do que gosta. Mas que, por ora, são nossos únicos prazeres na vida, já que a paixão foi deixada de lado.

Porque amar não dá dinheiro. Sorrir não dá dinheiro. Acordar em paz não dá dinheiro. Ir dormir com a sensação de missão cumprida não dá dinheiro. Gozar – salvo raras exceções – não dá dinheiro. Ter tempo pra viver não dá dinheiro. Então a gente vende o nosso amor, o nosso sorriso, a nossa paz, a nossa missão, o nosso gozo e o nosso tempo. Nem que isso custe a nossa liberdade – que, teoricamente, nos é assegurada pela Declaração Universal dos Direitos Humanos. Porque mamãe ensinou que não é pra dever nada pra ninguém. Pra ninguém que não sejamos nós próprios, é claro. Porque dívida interna a gente resolve é na terapia. Não é mesmo?

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