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O dia que aprendi a que a paixão nunca nos deixa

Esses dias, enquanto estava prestes a desistir das emoções que ainda poderia sentir, conheci uma mulher que me fez redesenhar um pouco a minha visão sobre a possibilidade de amar. Tudo bem, talvez não redesenhar por completo, mas, com certeza, colocar um pouco de cor.

Era uma quinta-feira, estava num bar, daqueles que saio quando a minha própria casa me expulsa e diz que tenho que sair um pouco mais. Confesso, ver séries tem roubado bastante o meu tempo. Talvez eu esteja ficando velho, mesmo antes de ficar com cabelos brancos. Ou só esteja pensando mais em mim, me refazendo, essas coisas. Não sei.

Conversando com meus amigos, bebendo uma cerveja e, de alma disposta, avistei uma mulher com a bolsa rente ao colo pegando dinheiro para pagar a conta. Achei estranho uma mulher, aos meus olhos, tão única, estar ali sozinha. Pensei em avaliar duas vezes, mas, antes de pensar pela segunda vez, já estava a caminho de conversar com ela o que viesse na minha cabeça. Larguei todas as minhas coisas e fui até lá, até porque não iria me perdoar se eu a deixasse ir embora. Não queria dormir com esse sentimento de culpa. Fui direto, para alguns, afobado, para mim, eu mesmo, e disse:

– Oi, sei que parece um pouco estranho, mas a verdade é que eu não poderia te deixar ir embora sem pedir teu número – visto que ela já estava indo embora, não tinha muito tempo para iniciar uma conversa.

Ela riu, contida, e disse:

– Haha, para que tu queres?

E eu, querendo ser diferentes de todos caras bêbados que já tinham feito alguma abordagem, falei:

– Para ser bem sincero, ainda não sei, mas com certeza algo que envolva sorrisos e batatas fritas.

Por sorte do destino, ou por esboçar um sorriso que treinei durante anos, consegui o número dela. Minha noite já poderia se encerrar por ali, e assim foi. Fui voltando para a minha mesa lembrando como ela era deslumbrante. Feita de carinho, ela tinha um sorriso meigo, um cabelo que pedia para ser curto e mãos que pareciam ser feitas de porcelana. Preciso dizer, é uma delícia sentir como se todas outras mulheres daquele lugar, naquele momento, se tornassem somente uma bela paisagem.

Fiquei mais um pouco e resolvi ir embora. Dirigindo para casa, e na ansiedade de falar com ela, resolvi conversar somente no outro dia. Não era charme, só bom senso mesmo. Não queria atropelar o castelo de areia que a gente poderia construir juntos. Mesmo sendo coração em alto-mar, naquela noite, resolvi ser maré baixa.

Já eram quase onze horas da manhã, eu já havia falado que tenho dois cachorros, que gosto de cozinhar, que nunca andei de navio, que tenho medo de aranhas maiores que a minha mão e que ela ficaria linda de cabelo curto. A gente estava em sintonia. Ah, que saudade desse sentimento sem nome. Dessa ansiedade de não saber o próximo passo que o coração quer dar.

Não aguentei esperar a semana terminar, infelizmente minha paixão não sabe mensurar o tempo. Com receio de ser precipitado, mas confiante na conversa que estávamos tendo, um dia depois de conhecê-la já estava a convidando para jantar comigo. Louco demais, caso não fosse sensacional.

Escolhi um restaurante que me traz aconchego, sempre imaginei levar alguém lá, mas nunca tive oportunidade. De clima sensível e com sabores que se fazem céu, pedimos um vinho e, junto a ele, nos degustamos. O jantar foi demais. A ouvi falar sobre seu trabalho, ela era advogada, coisa que pouco entendo, mas eu sorria e mexia de forma positiva a cabeça como se tivesse doutorado em direito e ouvisse a rádio CBN todo dia pela manhã. Conversamos, nos alfinetamos, mentimos um pouco um para o outro – queríamos nos seduzir – e fomos embora em direção ao carro.

Há tempos eu não ficava tão meticuloso ao pensar em dar um beijo numa mulher. E confesso – baixinho para ninguém ouvir, claro – que delícia foi sentir isso de novo. Estava chovendo, dividiríamos um guarda-chuva, e, convenhamos, existe coisa mais cinematográfica do que dividir um guarda-chuva? Pensei num beijo de cinema. Quer dizer, pensei em vários beijos. Todos de cinema. Mas a minha parte desengonçada me aconselhou a não inventar moda. Levei-a no carro, abri a porta para ela, pois estava chovendo e eu era o detentor do guarda-chuva, e fui para a direção pensando: É agora? E, acreditem se quiser, na minha cabeça eu fazia algumas onomatopeias, todas em clima de euforia. Coloquei uma música, The Calling – Wherever Will Go, queria criar um misto de clima, nostalgia e riso. Consegui. E arrancar um riso é quase arrancar um beijo, só questão de tempo. Digamos que o riso, na maioria dos casos, seja um pré-beijo.

Eu não esperava muito dessa noite, sexualmente falando, queria um beijo, uns dois sorrisos e só. Já estaria pulando com isso. Sozinho. Pelado. Pelas ruas. No frio. Pois, preciso admitir, quando estou loucamente apaixonado por uma mulher a ânsia de querer fazer sexo sempre acaba ficando em segundo plano – por mais piegas que isso soe. Digamos que as coisas fluem de maneira tão natural, que não me faço desespero para terminar a noite da forma como muitos julgam perfeita. Só queria continuar ali, trocando alguns beijos e conversando sobre a sua última ida a Barcelona, sobre o céu cor tangerina do pôr do sol de Nova Iorque…  Era incrível a abertura de horizonte que ela tinha sobre mundo, eu estava fascinado, e louco para sumir com ela para algum lugar do mundo.

No carro, e torcendo para que houvessem mais sinais vermelhos do que sinais verdes, disse a ela que existia uma crônica do Pablo Neruda que contava que beijos dados em sinais vermelhos se tornam mais gostosos e, quando acontecem, precisam ser repetidos em todos próximos sinais vermelhos que aparecerem até ela chegar em casa. Obviamente tudo uma grande e linda mentira. Mentira essa que resultou em seis maravilhosos e inesquecíveis beijos, daqueles que tínhamos até que tirar o cinto para nos aproximarmos. Esses foram os seis melhores beijos da minha vida.

Quando os sinais vermelhos se fizeram fim, a deixei em casa e, até hoje sem saber ao certo o que houve, nunca mais nos vimos. Não nos falamos, não trocamos mensagens, nem sequer nos esbarramos pelas esquinas que a vida nos cria. Era para ser assim. A verdade, é que fomos feitos para nos encontrar e trocar esperanças. Nos próximos amores, na vontade de viver, na ânsia de encontrar alguém que construa na gente o seu lugar. Não era para ficarmos juntos uma vida inteira, nem, como imaginei, para construirmos castelos de sonhos e companhias. Era para nos provarmos como a paixão sempre nos dá pistas da sua existência.

Ela simplesmente foi um beijo que ficou, uma paixão de dois dias que me fez acreditar no poder que a vida tem em distribuir momentos lindos. Nem todos momentos vêm completos e precisam ser infindáveis, às vezes, algumas coisas surgem e criam uma pequena e linda ponte para, do outro lado, encontrar um coração que também queira um lar calmo para morar.

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