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O diretor das suas lembranças é o seu jeito de ver a vida

A menina mais bonita da escola, o primeiro e o último encontro, o parceiro de uma cervejinha escondida num almoço de sexta-feira. As pessoas estão num produção constante da nossa visão de mundo. Nós somos uma soma das lembranças que temos com a expectativa para o futuro que está por vir.

As memórias são uma sequência de esquetes dirigidas e editadas pela maneira como escolhemos ver a vida. É ela, essa lente única, com 3D abundante e regulagem sistemática de luz, quem define quem são os outros e quem fomos nós até dois segundos.

Quem terminou o namoro vê sempre os problemas que permearam a relação. Quem foi dispensado tem a impressão de que tudo foi perfeito até aqui. Quem se sente injustiçado, lembra apenas dos episódios em que julga ter sido vítima. Quem foi injusto, pensa só nas suas justificativas para a ação.

Somos uma soma de recortes produzidos pelos outros, mas editados apenas por nós. E essa consciência é a mais poderosa arma com a qual podemos lutar para mudar qualquer realidade. É o primeiro passo da empatia e o mais difícil.

Temos a falsa impressão de que todo mundo vê as coisas do mesmo jeito. E, definitivamente, estamos errados. Uma brincadeira pra você pode ser ofensa para alguém – e não é porque essa pessoa não tem senso de humor. É apenas porque vê o mundo diferente. Você pode estar esperando um pedido de desculpas de alguém que simplesmente não percebeu que te magoou. Porque no filme dela, editado pela visão de mundo dela, não aconteceu nada grave.

Entender que as lembranças do outro são visualizadas daquele ângulo e não do nosso traz uma percepção de que o mundo é maior. Porque, afinal de contas, se cada um de nós edita as suas memórias, o cinema que é a vida não deixará nunca de ter novidades.

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