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O escritor e o monstro

Antes de começar a escrever publicamente, quando cuspia versos somente para preencher as minhas gavetas e para me livrar das pressões internas, não tinha a mínima ideia do quanto as palavras são capazes de fazer com que os leitores superestimem os autores. Não sabia que, graças a um conto regado de ficção e poesia, o autor pudesse ser confundido com um personagem que nunca existiu fora do papel.

Hoje, minha percepção mudou. Depois de publicar mais de cem textos e de, graças a eles, receber mais de mil pedidos de casamento, descobri o quanto os escritos são capazes de fazer com que os leitores vejam o autor como algo que ele, definitivamente, não é, ou melhor, como algo que eu, com certeza, não sou. Talvez, outros autores, nunca inventem personagens e escrevam somente sobre situações estritamente reais, mas eu não. Eu invento mundos e pinto universos. Em muitos contos, eu encarno pessoas que nunca fui e que nunca tive a intenção de ser. Em outros, assumo a pele de velhos, de objetos, de mulheres, de animais e de coisas que não conseguiria nem se eu doasse a alma para o diabo.

Enganam-se aqueles que, impulsionados por uma ficção no qual conto como o personagem principal faz a mulher gozar em cinco linhas, acreditam que eu sempre sou capaz de uma proeza do tipo. Sinto muito. Algumas vezes, sou como o homem com quem já saiu e que demorou muito para levar você ao orgasmo. Aliás, em muitos casos, sou pior do que ele. Saibam que o Ricardo Coiro do mundo real, muitas e muitas vezes, não superou as expectativas da protagonista em chamas. Já broxei e, ao invés de tentar retomar a transa, já preferi ver um DVD.

Desculpem-me pela demasiada sinceridade, mas prefiro deixar o título de “O Cara” para aqueles que realmente merecem um apelido como esse. Se é que algum mortal, além do Romário, merece um título tão exagerado. Confunde-se aquela que, depois de ler um texto meu, acredita que sou o homem perfeito e o marido ideal. Já traí mulheres. Já me traí. Já deixei o sangue subir e se transformar em palavras rudes. Já perdi o controle da TV e, também, o controle de alguns muitos relacionamentos. Já me acomodei como o marido preguiçoso que o Faustão relata “ad infinitum” todo santo domingo. Já pequei e, até hoje, não fui me confessar. Nem irei.

É claro que em textos de opinião, nos quais defendo alguma posição minha, a história é outra. Nesses casos, escrevo realmente aquilo que eu acredito e falo exatamente aquilo que me move. Mesmo sabendo que estou sempre sujeito a mudar de posição e, num futuro próximo, retratar-me pelo que disse no passado. Já nos textos de ficção (contos e crônicas), apesar de, em vários casos, apropriar-me de situações que vivi, em outros, dou-me o direito de ser um criador desenfreado, de habitar em outras peles e de usar minha criatividade para pintar paisagens que nunca vi nem no Google ou para descrever lábios que sequer passaram nas mesmas ruas que eu.

É claro que amo receber elogios e que, a cada novo “like”, meu sorriso aumenta muitos graus na escala Richter (valeu Hugo Rodrigues pela expressão genial), porém, como sempre mantive uma relação bem franca com os leitores, gostaria confessar aqui, de forma clara, o quanto sou parecido com outros milhões de homens do mundo. O quanto, inclusive, sou pior do que muitos deles. É claro que sou melhor do que alguns, afinal, os presídios estão lotados de gente. Entretanto, percebo que, em várias situações, sou o “vizinho da grama que parece mais verde” e motivo que faz com que muitas mulheres subestimem e critiquem os atos do cara real que vive e respira para fazê-las sorrir. Não é justo comparar um personagem que nasceu para o papel com o namorado que está, todo dia, verdadeiramente, sob influências das intempéries climáticas e do seu humor mutante. Certo?

É óbvio que gosto muito de ser admirado como escritor, não nego. Afinal, é isso que me faz feliz e o único trabalho que, a meu ver, não precisa de férias. É evidente que também gosto de ser admirado pelas minhas opiniões e atitudes reais. Quem não gosta? Só não quero enganar ninguém ou ficar quieto e deixar algumas pessoas acreditando que sou o homem ideal, pois não acredito que exista um arquétipo impecável e inabalável, afinal, as variáveis imprevisíveis sempre são capazes de nos corromper. Se pseudo-santos já foram corrompidos pelo acaso, imagine o quanto estou sujeito à tentação mundana. Não quero que meu silêncio seja uma forma de ludibriar e fazer com que algumas pessoas continuem acreditando que clones meus fariam do planeta um lugar melhor. Cópias minhas, só encheriam o mundo de letras. Se a clonagem for realmente liberada, sugiro que façam cópias do Woody Allen e do Leminski.

Só o fato de ser ficção, já é razão óbvia para desconfiarem que os muitos filhos que crio, em muitos textos, não carregam nenhum gene meu. Isso mesmo! Meus frutos nem sempre têm a boca, os olhos, a fúria e o medo do pai.

Se quiserem e acharem que mereço, gostem de mim pela capacidade que tenho de ser um camaleão e de me vestir somente com auxílio das palavras, mas, nunca, em nenhum momento, esqueçam-se: às vezes, além de escritor, sou um monstro.

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