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O exercício da gratidão

Entre todas as coisas banais que me incomodam nessa vida – e por coisas banais entendam afta, internet instável e estação de rádio mal sintonizada – a que mais me tira do eixo é o uso indiscriminado da palavra “gratidão”. O dia amanheceu ensolarado e finalmente vai dar pra secar a roupa no varal? Gratidão. O moço ajudou a pegar o pote de palmito que estava na prateleira mais alta do supermercado? Gratidão. Foi dispensado do trabalho mais cedo por conta de um teste no alarme de incêndio do prédio? Gratidão. Oi, adorei seus óculos. Gratidão. O seu cabelo é lindo. Gratidão. Você cozinha um feijão muito daora. Gratidão. Parabéns. Gratidão. Amanhã é feriado. Gratidão. Te amo. Gratidão. É open bar. Gratidão.

Pra começo de conversa, gente, “gratidão” é substantivo. E quando a gente quer demonstrar um estado nosso diante de algo que aconteceu ou que alguém fez por nós, o ideal seria usar um adjetivo. “Estou muito felicidade com o meu novo emprego e muito satisfação por ter passado num processo seletivo tão rigoroso” ou “estou muito feliz com o meu novo emprego e muito satisfeita por ter passado num processo seletivo tão rigoroso”? Se você escolheu a segunda alternativa, você também não entende o uso indiscriminado de “gratidão”. Toca aqui.

Porém, postas as minhas implicâncias, eu devo reconhecer que há algum valor na “gratidão”. Em primeiro lugar, porque “obrigada” dá a noção de que a gente foi coagida a fazer alguma coisa. De que a gente agradeceu porque tinha que agradecer, e não porque ficou verdadeiramente feliz com aquilo que aconteceu. Em segundo lugar, porém não menos importante, porque a vibe da galera da “gratidão” é boa, não é? Aplaudir o pôr-do-sol, meditar no parque, frequentar centros de autoconhecimento, se reconectar com a própria essência, abraçar árvores, amar o vento, dançar para a chuva, saudar a mandioca. Não tenho nenhum problema com nada disso. Tenho até amigos que praticam.

Eu, aliás, já chorei vendo pôr-do-sol. Já dancei na chuva. Já abracei árvore. Já votei em quem saúda a mandioca. Medito – em casa – até hoje. Não perco uma oportunidade de ir ao parque, como toda boa paulistana. Já participei de retiro espiritual. Já fiz mapa astral. Já fiz leitura de aura – e descobri, inclusive, que tenho um terceiro olho absurdamente desenvolvido. O que me faz crer que, bem, se eu não sou do grupo da gratidão, eu pelo menos carrego a caixinha completa de ferramentas. Então, vou deixar fluir.

Outro dia – em outubro do ano passado, mais especificamente – eu peguei a estrada rumo a Florianópolis. São mais de 700 quilômetros, o que representa umas nove horas de viagem de carro, segundo o Google Maps. Por motivos de não sei dirigir e tenho raiva de quem sabe, não era eu quem estava guiando, era o meu namorado. Mas ouso dizer que a minha privação era maior do que a dele, porque nos dois dias anteriores à viagem, eu havia trabalhado alocada num cliente, naqueles escritórios cinzas, de baias cinzas, luzes cinzas, pessoas cinzas e… banheiro de cabininha. Daqueles em que É IMPOSSÍVEL cagar em paz. Foram, portanto, dois dias sem fazer cocô. No terceiro – que já era o dia da viagem –, eu sentia a bosta dar cambalhotas no meu intestino. Como saímos muito cedo, não consegui me aliviar em casa – afinal, eu tenho um intestino sistemático que só funciona na faixa das 9h às 11h.

Deu nove, ele já começou a se manifestar. E a gente no meio da estrada. Deu nove e meia, ele já gritava. E a gente no meio da estrada. Deu dez, ele já chacoalhava mais do que micro-ônibus rumo a Mauá. E a gente no meio da estrada. Deu dez e meia, ele já era um ensaio do Olodum no pré-Carnaval de Salvador. O que, obviamente, significava que a gente PRECISAVA parar num posto de gasolina com banheiro. Segurei mais uns quinze minutinhos, até aparecer um posto. Por fora, não era grande coisa.

Qual não foi a minha surpresa quando entrei no banheiro e – pasmem! – ele era pelo menos cinco vezes mais limpo do que o banheiro da minha casa. Com box de vidro, sabonete líquido, papel macio, toalha para secar a mão e – o melhor de tudo – uma porta que subia até o teto, vedava o barulho da rodovia e ainda deixava aquele clima escurinho delicioso. Que mais eu queria pra cagar triunfalmente? Ou melhor, o que mais eu devo à vida senão gratidão por um acontecimento maravilhoso como esse?

Por isso, gratidão. Gratidão pelo banheiro limpinho de beira de estrada. Gratidão pela saladinha de beterraba que eu estou prestes a mandar pra dentro. Gratidão pelo prato de arroz e feijão que vem logo depois. Gratidão pelas seis horas de sono ininterruptas dormidas essa noite. Gratidão pela chuva que derrubou os termômetros aqui em São Paulo. Gratidão por esse bocão lindo que eu tenho. Gratidão por esses dedinhos tão rápidos na digitação. Gratidão pelas pernocas que me levam de um canto a outro da cidade. Gratidão pelo pagamento do freela que acabou de cair na minha conta. Gratidão pela calça de moletom deliciosa que eu estou vestindo agora, enquanto escrevo esse texto. Gratidão pelo insight desse texto. Gratidão pela vida.

Ah, e gratidão a você, que não desistiu do meu relato intestinal e me leu até o fim. Um dia desses a gente se encontra por aí pra saudar a nossa ancestralidade abraçando um pau-brasil. Valeu, falous.

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