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O mito da liberdade

Uma das coisas mais supervalorizadas da história da humanidade – ao lado da Nutella, do 69 e do Lars Von Trier – é o conceito de “liberdade”. E o primeiro motivo para que eu pense assim é muito simples: a liberdade absoluta não existe. Jamais existiu e jamais vai existir. E as liberdades relativas, essas sim são importantes. Quem proclama aos quatro ventos que é livre, na verdade não podia ser menos livre. Todos – pelo menos a grande maioria – dos seres humanos estão presos a regras sociais, das mais radicais às mais tênues, da moda à culinária, passando pelo simples fato de que andar vestido não é natural, e sim uma convenção social.

Vou morar com a minha namorada em algumas semanas e ouvi algumas vezes a velha piada de que vou perder a minha liberdade. Me perdôem os ripongas e demais maconheiros cuca-frecas, mas liberdade não é como um fígado ou um apartamento em Paris, coisas sem as quais ninguém consegue viver. Eu consigo perfeitamente viver sem essa liberdade plena tão alardeada por aí. Na verdade, eu até quero viver sem essa liberdade absoluta.

Eu quero ter que voltar para a casa porque a minha mulher está me esperando. Eu quero não poder ir a algum evento para cuidar da minha mulher que está gripada. Eu quero não poder aceitar convites para esbórneas infindáveis porque, afinal, sou um homem comprometido. Há de se fazer concessões, e nesse caso, manter toda essa liberdade tão falada seria abrir mão de estar com a mulher que eu amo.

Só o infeliz é verdadeiramente livre. Se você é feliz, você escolheu abrir mão de alguma parte da sua liberdade em prol de algo que te faz feliz, e não há nada de errado nisso. O infeliz não. O infeliz se diz livre porque ele não possui nada que lhe faça feliz a ponto de ele querer abrir mão da sua “liberdade”. Liberdade essa que é como a velha anedota de que em São Paulo você pode pedir até comida tailandesa às três da manhã, mas quando na vida você vai precisar pedir comida tailandesa às três da manhã? O infeliz se gaba da liberdade, mas não goza dela. Ele está tão preocupado em se dizer livre para viver que esquece de viver de verdade, e se prende cada vez mais aos grilhões dos supostamente livres. Ele é livre mas tem que fazer isso, tem que fazer aquilo, tem que fazer assim, tudo em nome da liberdade.

No final das contas, liberdade é poder escolher o que te faz feliz. É poder escolher, de verdade, a maneira que você vai ser feliz. Porque, se você parar para pensar, falta de liberdade é não poder fazer algo que você quer fazer. E, se você escolhe não fazer por vontade própria, você está tomando uma atitude muito mais livre do que qualquer neo hippie rebelde sem causa que acha que liberdade é poder pintar o cabelo de azul e usar terno e gravata com All Star.

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