p-gustavo Esta foto é sua?

O primeiro genro a gente nunca esquece

Minha filha chegou numa festa de família com um cabeludo de roupas largas e disse “pai, esse aqui é o Gustavo”. Ela tinha me dito que apresentaria alguém, mas a gente nunca sabe bem o que esperar desse momento. Todo pai fica nervoso, acredite. E não é porque ele ainda enxerga a filhinha dele como uma criança, mas porque se preocupa com o bem-estar dela mesmo. Então, imagina só o monte de coisas que voaram na minha cabeça ao ver aquele ser parado na minha frente, exibindo um sorriso sem graça por ter que conhecer o “sogro” e sem saber onde colocar as mãos.

Hoje, já acho até graça.

A mãe dela, se me lembro bem, ficou meio horrorizada. Ele usava boné, tinha uma tatuagem descendo pela manga da camisa e se sentou no sofá olhando pro teto. Aceitou a água que a gente ofereceu por livre e espontânea pressão, mas foi bem educado com todos os presentes no lugar. Enquanto tios, primos e sobrinhos iam cumprimentando o elemento, eu ia olhando de longe as atitudes e ouvindo os risinhos de quem passava. Não fiz muita força para me enturmar com o cara, confesso, mas também não fiz nada para deixá-lo numa saia justa. Pra quê constrangimento? Foda era que meu cunhado volta e meia passava por mim e dizia “relaxa que é só o primeiro”.

Quando eu já começava a me acostumar com aquela presença ali, presenciei uma cena que me acalmou de certa forma. Vi minha filha sorrindo. Do lado daquele menino, ela sorria de um jeito que eu nunca tinha visto. Talvez seja um choque, sim, começar a perceber que sua menininha (que até ontem corria pela loja de brinquedos pedindo uma boneca) está no caminho para se tornar uma mulher. Ter atitudes de mulher, desejos de mulher. Assim como todo filho nega a vida sexual dos pais e acha um absurdo pensar nisso, muitos pais também não conseguem enxergar os filhos por essa perspectiva.

E os deixam sós.

Refleti muito nessa hora. Parei pra pensar em toda educação que tinha dado à ela em casa e a instrução oferecida na escola que pude bancar. De longe, vi a mãe dela já sentada do lado do menino e conversando animadamente – superando (rapidamente) o espanto da primeira impressão. E minha filha continuava sorrindo enquanto via os dois conversando. Decidi me aproximar. Cheguei lá, prestei atenção na conversa e senti, claramente, o ambiente ficar mais tenso. Tentei rir de algumas coisas e quando finalmente entrei na conversa, deslizei. Perguntei “mas vocês já estão namorando sério?” e acho que a entonação me traiu. Acho que ninguém ali gostou.

“Sim”, respondeu firme minha mulher. “Menos sério do que a formalidade do nome”, minha filha disse e acabou sorrindo. Ele é um palhaço de tão engraçado, complementou, o relacionamento não consegue ser sério. E eu também tentei rir daquilo tudo. Era, sim, muita informação ao mesmo tempo. É uma porrada de coisa nova, mesmo sendo uma só: aquele momento em que você precisa aceitar que sua menina não é mais tão menina assim.

Fiquei mais uns dez minutos ali, até perguntar:

“Qual seu time?”

“Flamengo”

Levantei e fui pegar um whisky. Eu até que estava começando a gostar do cara, mas ter que aturar um flamenguista na minha casa ia ser foda.

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