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O que pessoas inteligentes aprendem com um pé na bunda

Pé na bunda. Quem nunca? Esta que vos fala já perdeu as contas – de quantos levou e de quantos deu – por que, se nesta vida apanhamos, também temos a oportunidade de bater de vez em quando.

A verdade é que nada nos pertence. As coisas e as pessoas podem simplesmente cansar de você quando você menos esperar, e, por mais que pensemos estar preparados, não estamos. Nunca estamos. Mas, se o sofrimento nos visita com mais frequência do que desejamos, então, que tiremos disto algum proveito.

O grande ponto quando se trata de lidar com um pé na bunda é saber perder. É o que fazemos a vida inteira: administramos perdas. E a vida, embora nos ensine muito mais a ganhar do que a perder, nos tira coisas com a mesma velocidade que nos presenteia.

Pode parecer impessoal – frio e cruel, em certo ponto – falar em ganhar e perder quando se trata do fim de um relacionamento. Como se as pessoas fossem objetos ao nosso bel-prazer, que ganhamos e perdemos como quem perde uma grana no pôquer ou ganha um presente de natal. Mas, se pensarmos com a tal frieza que a vida nos exige, é exatamente isto.

Choramos muito mais a perda daquilo que julgávamos ter do que a própria saudade, que deveria ser o ponto principal do tal pé da bunda. Choramos o nosso próprio fracasso em manter alguém que julgávamos nosso. A dor de não poder escolher agiganta-se diante da mera saudade do abraço, do cheiro, do cotidiano.

O amor fica pequeno perto do egoísmo de simplesmente sentir-se dono – e quando você se livra da ideia de que alguém lhe pertence ou pertenceu em algum momento, você abstrai a perda. Por que os relacionamentos, na verdade, são como barquinhos num grande oceano: cada um navega para onde melhor lhe convir. Se convier navegar lado a lado, ótimo. E, se não, paciência. Cada um continua seguindo seus próprios ventos.

Choramos, na verdade, nosso próprio fracasso. Nossa suposta incapacidade em manter ao nosso lado aquele que julgamos querer. Choramos por que, no íntimo de nossas almas, julgamos que perdemos por demérito – e o sentimento de não merecer é mais cruel do que qualquer saudade. O sentimento de perder o controle da situação é mais desesperador do que qualquer abraço quente que lhe falta na cama.

Alguém inteligente – veja bem, não a inteligência das equações, mas aquela inteligência complicada que os sentimentos exigem – compreende que nada nos é tirado. Que a mania de sofrer pode ser maior do que o próprio sofrimento. Que a autopiedade é mais cruel que a própria saudade.

A saudade, sozinha, é aquele sentimento bonito por algo bom que foi vivido algum dia e que compreendemos não nos pertencer mais. Mas a saudade temperada pelo melodrama, pela mania de querer tudo para si – como se o mundo não escolhesse por nós de vez em quando – é catastrófica.

Quando nos livramos do egoísmo, do sentimento de posse e do orgulho, compreendemos que nada é quando realmente não deve ser. Que tudo passa se deixamos passar. Que tudo vem se sabemos receber. Que um pé na bunda não nos torna mais ou menos merecedores de coisa nenhuma: nos torna humanos, como um monte de seres humanos por aí que já sofreram por amor e continuam vivos.

Aprende que o mundo não vai te obedecer sempre. E que de vez em quando você vai perder – aliás, você vai perder quase sempre. Ganhar é a exceção. Estar acompanhado é a exceção. A regra é estar só. Aprende a ser só. Aprende a navegar. Toca teu barquinho.

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